terça-feira

Melancolia




Sabe aqueles momentos em que você se pega pensando no que realmente vale a pena na sua vida? Eu penso. E o grande problema disso é pensar tanto e no fim das contas concluir que no fundo nada vale a pena. correr grandes riscos é que vale a pena. Ou não.


PERSONAGENS:

RAQUEL – TÉO - LUISA - JOÃO

(Luz acende. Estão os quatro espalhados pelo espaço. Sem móveis. O ambiente é um apartamento quase vazio. Téo observa lá fora pela janela. Raquel está sentada brincando com um isqueiro, acendendo e apagando repetidas vezes. João deitado no colo de Luisa).

João – E o dia se foi. Ou melhor, mais um dia se foi. E nada de importante aconteceu. O dia vai terminar da mesma forma que começou...

Luisa – E poderia ter sido diferente?

Téo - Nós poderíamos ter feito alguma coisa que valesse a pena...

João - Eu não consigo imaginar nada que valha a pena nesse momento.

Raquel – Sempre se pode fazer alguma coisa.

João – Fazer o quê? Eu não tenho a menor vontade de fazer o que quer que seja.

Luisa – Não fazer nada também é fazer alguma coisa.

Raquel – Agora não dá mais tempo. Daqui a alguns minutos já vai ser meia noite. E de acordo com a tradição capitalista-socialista-sonhadora, é o momento exato de se fazer um pedido ao universo. (T) Se vocês pudessem fazer um pedido agora, o que é que vocês pediriam?

Luisa – Uma viagem. Paris.

Téo – Cigarros.

João – Um óbito decente!

Raquel – O quê?

João – Um óbito decente. Eu ia pedir pra morrer agora, nesse exato instante.

Luisa – Que bobagem. Que graça tem em pedir uma coisa que vai acontecer mais cedo ou mais tarde?

João – Mas eu não quero uma morte qualquer. Eu quero uma morte sem dor, sem sofrimento. De sofrimento já basta o que eu tive até aqui. (T) Você toparia morrer comigo?

Luisa – E por que eu morreria com você?

João – Sei lá. Por que a sua vida tá uma bosta igual a minha. Aliás, a nossa vida sempre foi uma bosta, nunca foi grande coisa. Pra gente como nós a única solução é morrer antes que a coisa fique preta de verdade.

Luisa – Eu não quero morrer, João. Pelo menos não agora. (T) E você, Raquel? O que é que você pediria?

Raquel – Não faço a menor idéia. A hipótese de ganhar alguma coisa de uma forma tão fácil já me faz ficar sem saber o que pedir. Na dúvida talvez eu pedisse o que toda mulher pediria numa situação dessas.

Luisa – Um namorado?

Raquel – Não. Sapatos. (As duas riem)

Téo – (observa fora) Vocês já prestaram atenção na quantidade de gente que circula por essas ruas quando a noite cai? Uma multidão que caminha solitária enquanto a grande maioria dorme. (Acende um cigarro). Pra onde será que toda essa gente vai, heim? Sabe que eu fico olhando essas janelas desses prédios, aí eu escolho uma e crio uma história. Eu gosto de imaginar quem é a pessoa que mora ali, o que ela faz, se é casada, se tem filhos, se mora sozinha. Se é feliz.

Raquel – (acende uma vela no chão) Sozinhas elas sempre são. Felizes talvez. Muitas são sozinhas mesmo quando estão rodeadas de um monte de gente. E ainda assim surpreendentemente algumas são felizes.

João - Pensa melhor, Lu. Olha a tua volta. Não tem pra onde correr. A gente chegou no fim da linha.

(Luisa se levanta e vai em direção a Téo que continua olhando lá fora).

Luisa – Que é que você tanto olha lá em baixo?

Téo – To olhando o nada. O nada e o tudo ao mesmo tempo.

Luisa – E como é que se faz isso?

Téo – É só você olhar um pouco além do que os seus olhos mostram. Um pouco além do óbvio.

Luisa – Continuo sem entender.

Téo – Esquece. É preciso anos de treinamento pra conseguir olhar além dessa paisagem cinza.

RaquelEu confesso que durante muito tempo eu tive medo dessa cidade. Sabe, um medo de ser engolida por ela. Medo de não conseguir ir em frente. Medo, apenas. (Apaga a vela).

João – Medo de quê?

Raquel – Do que eu poderia descobrir aqui. De descobrir que as coisas não são fáceis.

Luisa – Mas pra saber disso nem é preciso de treinamento. Nada nunca é fácil pra ninguém. Nunca é.

Raquel – Eu sei. Mas mesmo assim, a gente sempre acha que com a gente a coisa vai ser diferente. Vai ter uma pitada de romantismo. Essa babaquice toda de esperança que a gente vê no cinema e se ilude achando que na vida real acontece.

Téo – Sabe o que mais me intriga? É que essa gente que ta lá embaixo não existe mais. Você olha pra expressão de cada uma dessas pessoas e é como se você estivesse vendo sempre o mesmo rosto. E assim, dia após dia elas seguem em frente. Seguem apenas por seguir. Mecanicamente.

JoãoE eles têm escolha? Ou tu segue em frente ou então se mata! (Para Luísa) O que não é uma idéia.

LuisaEngraçado. Comigo foi diferente. Quando eu cheguei aqui eu me senti desafiada por esse mundo obscuro, sabe? (Feroz) Era como se uma força puxasse de mim uma vontade de brigar, de mostrar quem eu sou, que eu vim pra alguma coisa. A cidade me desafiava de uma forma que me obrigava a viver tudo com uma intensidade que ao invés de me assustar fazia com que eu desejasse cada vez mais estar aqui, vivenciando tudo o que eu vivia. (Caindo em si) Foi por isso que eu vim parar aqui. Vivenciei demais a coisa toda. (Todos riem).

João – Morre comigo?

RaquelEu sei o que você ta sentindo. É uma dor que no peito. Uma dor que não dói tanto fisicamente. Mas é como se te dessem a todo instante um tiro na alma. (Acende um cigarro) Eu sinto isso tanto tempo. (T) Acabei me dando conta de que eu nunca fui feliz.

JoãoNinguém é feliz. (Gritando) Ninguém é feliz nessa cidade de merda!! (Agarra Raquel) Morre comigo? Morre comigo? Morre comigo, porra!

(Ele começa gritando com Raquel, até que Luisa o puxa para si e aos poucos os dois vão caindo. João termina por aninhar-se no colo de Luisa, que passa a mão pelos seus cabelos, mas sempre com os olhos apáticos, sem brilho, como se não o enxergasse, num gesto visivelmente mecânico).

RaquelEu vou sair. Eu preciso de ar, respirar ar puro. (Ri irônica) Como se isso fosse possível. (Para Téo) Me faz companhia?

Téo – Não sei se sou a companhia que você procura.

Raquel – Pode até não ser é a que eu procuro. Mas no momento é a que eu preciso.

João – Lu?

Luisa – Fala.

João – Me dá um cigarro?


Black

3 comentários:

Gabriel Revlon disse...

Uma dia comum, com pessoas comuns procurando o inusitado dentro da grande cidade do lado de fora, sem perder a nauseá que por dentro quer questionar o viver por viver ou a existência que significa, de forma subjetiva, de forma pessoal, de maneira que a felicidade se faça presente, ou ao menos de maneira que a tristeza não doa tanto.
Você é um escritor... o escritor do cotidiano.
Gostei demais!

Thiago Ribeiro disse...

Obrigado, Gabriel!!!!

@Lucas_Bolzan disse...

Como sempre muito bom,realidade vivida por muitos, principalmente que moram em grandes Capitais, hoje em dia é muito fácil de se perder e não encontrar dentro de sí,força e um objetivo de viver.