Acabei de chegar em casa depois de passar três dias fora. Sabe, me sinto estranho ao pisar novamente aqui. As pessoas me olham como se eu fosse um ser estranho, como se não pertencesse mais a esse mundo. Desde pequeno nunca tive muita vontade de viver em bando. Claro gosto de ter a companhia de pessoas que eu gosto, dos meus amigos, eu gosto disso. Mas eu sou um cara que preza muito mais a solidão. Adoro ficar em casa sozinho, ouvindo música, curtindo a minha companhia. Sei lá, uma esquizofrenia talvez, mas é o meu jeito. As pessoas se assombram sempre que conto minha fórmula da felicidade: ter o meu canto, com a minha energia, ter o meu emprego, ter meus pequenos luxos como ir ao cinema, comprar um livro e fazer uma viagem no fim do ano. Ou seja, coisas extremamente possíveis. E para isso eu não preciso desfrutar da companhia de ninguém. Posso muito bem fazer tudo isso sozinho. Por quê que eu sou assim? Freud explica. Sempre fui uma pessoa que se apega muito fácil aos outros. Me apegava aos meus amigos com uma facilidade impressionante. E o tempo (ou o destino, chamem como quiser) sempre dava um jeito de afastá-los de mim. Eu, bobo como sempre, demorei até perceber que essa é a máxima dos amigos na nossa vida: eles vem e vão, aproveite os enquanto ainda estão do seu lado. Hoje em dia aprendi (será?) A lidar com essas perdas. Desfruto ao máximo a companhia dos meus amigos. Sempre com esse medo, esse temor de perdê-los na primeira esquina. Mas mesmo assim vou em frente e tento manter essa amizade ao máximo. Gosto muito de conhecer pessoas, é um dos meus passatempos favoritos.
"(...) Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos."
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segunda-feira
Chuva agora, quem sou eu no meio da névoa?
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| Quero se livre... |
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| Meu sonho? Tomar um banho de chuva... |
A chuva cai em cântaros nessa cidade estranha na qual me encontro. Uma chuva densa que tem por finalidade lavar toda a sujeira que permanece oculta pelas sombras da noite ou pelas cinzas do dia. Penso que talvez eu devesse me colocar debaixo dessas águas abençoadas para que minha alma fosse purificada, para que meu corpo permanecesse isento da maldade desse mundo cão. Contemplo com um olhar perdido os rostos tristes e sem esperança dos milhares que passam por mim diariamente no seu frenesi incontrolável. Todos temem algo, ou alguém. Todos buscam alguma coisa, ou alguém. Algo que os transforme em seres realizados. Meu olhar vazio percorre vielas, becos vazios e ruas povoadas de gente. Meus passos me levam adiante sem que eu possa me dar conta de para onde estou seguindo. É como se uma força dentro de mim se manifestasse, uma força que eu não conhecia. O frio que se instala em mim quando abro a janela do ônibus vazio, me trás à lembrança de quando era criança, e que todos os meus problemas se resolviam cobrindo a cabeça com o lençol da cama. Observo a paisagem ao meu redor. É um misto de loucura com desejo, uma fórmula que eu jamais saberia explicar. Assim é essa cidade. Um lugar que me desafia a todo instante. Dotada de uma força descomunal, essa cidade tem a capacidade de testar todos os meus limites. Nela chego ao topo ainda desejando ir mais além. Organizo os pensamentos que vem em alta velocidade na minha cabeça. Uma esquizofrenia se apossa do meu ser, e no minuto seguinte decido que já não sou eu mesmo. Sou qualquer, eu sou de qualquer lugar. Eu sou do mundo, sou o quem o mundo quiser que eu seja. Eu sou uma fera que corre contra o vento buscando o prazer de estar liberta. Eu sou a fúria nos olhos dos guerreiros que por aqui passaram anos atrás. Eu sou o ciúme que percorre as veias do amante, eu sou o desejo que corrói os jovens enamorados, eu sou a raiva de um coração desprezado, a desilusão que mutila o sonho daqueles que não conseguem ir além das dificuldades que encontram pelo caminho. Num súbito lance de lucidez retorno para minha realidade cotidiana, onde sou esse ser que todos vêm, mas que ninguém consegue decifrar, que mantêm dentro de si um mundo que pulsa, vibra e sofre. Carne, sangue e coração.
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| Na solidão encontro todas as forças que necessito para sobreviver nesse mundo... |
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