segunda-feira

A CRÔNICA DO AMOR INEXPLICÁVEL


PRÓLOGO INÚTIL DE UM PSEUDO-ESCRITOR
“Essa é uma pequena história de amor. Impossível falar de mulher sem se utilizar dessa pequena palavra que move o mundo muito antes da invenção da moeda. O amor incondicional, esses são sentidos apenas e totalmente pelas mulheres. Somente a mulher, no auge da sua grandeza é capaz de abdicar de si mesma por aqueles que ama. Que homem seria capaz de abandonar uma mulher mesmo estando apaixonado por outra? Nenhum homem jamais alcançará a grandeza feminina descrita tão bem por grandes pensadores. Não tão bem descritas talvez por serem estes grandes pensadores homens. A todos esses peço licença, para contar essa história, de uma mulher que amou mais do que devia. Mas que ninguém se espante, por que isto é o que elas fazem de melhor: amar incondicionalmente”.

(Sugere-se que o ambiente demonstre ser habitado por uma alma complexa. Uma leve bagunça, coisas espalhadas pelo chão. No centro uma penteadeira, onde um grande espelho se encontra disponível para compartilhar da grande angústia, ou não, da nossa protagonista. Alaíde usa o espelho como confidente, e encontra nele o seu único companheiro fiel. O que muitos classificariam como loucura, se traduz aqui como uma imensa solidão, revelada em cada detalhe do ambiente levemente melancólico. Alaíde é uma mulher bonita, mas que se esconde por detrás de uma maquiagem borrada, que demonstra ao público a frustração dela com a vida. Veste-se com uma camisola meio velha, cabelos desgrenhados, boca suja de batom, como se fosse uma sobrevivente de uma traumática noite de amor).

ALAÍDE – (Sentada em frente ao espelho) Toda eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair pela boca. Acordo todas as manhãs com a sensação de que perco algo a todo instante, como se os momentos mais importantes da minha existência ficassem submersos enquanto eu emergia incompleta. (Levanta em desafio) Nasci superior, mulher, aberta e adepta aos amores que a mim foram oferecidos em diversas ocasiões, amor de pai, de mãe, de irmãos. (Saudosa) Desde cedo acreditei que minha missão nesse mundo era propiciar a felicidade àqueles que de mim se aproximassem. (Amarga e conformada) Mas com o passar dos anos percebi que eu nada mais era do que um instrumento de prazer para milhares de homens que de mim se serviam na maior crueza possível. Eram homens das mais diversas origens. Vinham até mim afoitos pela carne, ofuscados pelo desejo e vazios de emoções. Emoções que me ofereciam sem que as possuíssem. (Sensual) A todos me entreguei sem pudores. Intimamente imaginava que um ali, dentre aqueles que me possuíam, eu encontraria a parte de mim que faltava. (Resignada) Obviamente não encontrei. Acabei me ferindo cada vez mais, e mesmo com as feridas ainda abertas, prosseguia na busca desenfreada. E o pior, o pior disso tudo é que eu nem ao menos sabia o que estava buscando. (Acende um cigarro) Que irônico: presa num ciclo em que não havia possibilidade de saída. Um ciclo que eu mesma criei. Um dia, depois de muito me entregar, me apaixonei. Não foi um amor qualquer. Foi uma paixão avassaladora, dessas que só as mulheres sentem. A esse amor eu me entreguei sem pensar. A santa e a pecadora reunidas numa só cama entregues a um só corpo, unidas na dor e no desejo. Descobri naquele tempo o que era ser amada de verdade, descobri o que era a FELICIDADE! Aquele homem soube me tocar de uma forma tão intensa que eu já não me reconhecia em seus braços. Me arrepiava ao menor contato do seu toque, uma sensação de fraqueza dominava o meu corpo, e juntos atingíamos o clímax, um êxtase em que já não havia o homem e a mulher, não existíamos mais como dois e sim como se fôssemos um único corpo, como se um não pudesse existir sem o outro. Mais aí acabou. Num belo dia ele me dispensou. Fez como todos os homens fazem. Nem melhor, nem pior, muito menos diferente. Fez exatamente igual aos outros que antes dele já haviam por mim passado. Guardo na memória as últimas palavras que ele me disse: “tenho um mundo pulsando dentro de mim, e mesmo assim, mesmo conhecendo os teus anseios e tuas dúvidas, mesmo sabendo que arriscaria boa parte dos teus sonhos por mim, mesmo assim não sei se serei capaz de retribuir da maneira que você deseja. Adeus”.  Nunca mais o vi depois disso. Soube um tempo depois que havia se casado com uma outra mulher, uma dita “mulher de família”, dessas que não dão no primeiro encontro. Mas que culpa tenho eu de seguir os meus instintos? Sou menos mulher do que as tais “mulheres de família”? Eu desafio a qualquer uma que aqui se encontra a provar que no meu lugar não faria a mesma coisa. Parei de me martirizar ao descobri que todas nós mulheres buscamos a mesma coisa: amor. Irene, Arlete, Suzana, Cláudia, Alice, Maria, Laura, Joana. Não importa o nome todas caímos nessa rede de mentiras que eles tecem ao nosso redor. No fundo eu sei que sou culpada. (Safada) Me deixei envolver por uma barba por fazer e um par de braços fortes com mão enormes. Esse é o nosso grande problema. A gente sempre se impressiona com coisas pequenas. (Mais safada, fazendo alusão ao pênis) Muitas vezes realmente pequenas. Tão pequenas que nem valem a pena. No dia a dia pequenas desavenças se tornam grandes problemas.  E é graças a esses problemas que eu me encontro nesse estado. Sozinha. Viva por fora e morta por dentro. Sem a certeza do que será de mim amanhã. Apenas sei que posso perder tudo, dos sonhos aos bens materiais. A única coisa de que não abro mão, é do dom de amar novamente. Amar como somente as mulheres são capazes. (Black).

                                                                                                                                 FIM

2 comentários:

Isaac Abda disse...

Ô menino talentoso e múltiplo... orgulho de tê-lo no Blog Posso Contar Contigo? Parabéns por esse espaço tão culturalmente rico... abração, Seu Lindo!!!

Thiago Ribeiro disse...

ô Isaac, eu é que fico feliz de fazer parte dessa equipe! :D vamos arrasar!! valeu pela visita!