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quinta-feira

AVAREZA


Não meus caros senhores que aqui se encontram. Não me sinto à vontade para dividir o que quer que eu tenha com quem quer que seja. Divisão é uma palavra que não se encontra no meu humilde vocabulário. Tenho plena consciência daquilo que me pertence e nada nem ninguém será capaz de tirar de mim, aquilo que me foi dado de bom grado ou que por muito esforço, outrora foi conquistado. Tudo o que é meu é meu, e não dou nada a ninguém. Poupo do ar ao dinheiro, de mim não tiram nenhum vintém. Não abro a mão para nada, nem mesmo para dar tchau, sei dar valor ao que eu tenho, economizo até o sal. Não pratico a caridade, deixo isso para quem gosta de esbanjar, não tenho obrigação com mendigos, menores abandonados, ou que quer que seja. Sofro com descaso daqueles esbanjadores que desdenham da minha precaução em poupar aquilo que conquisto. Ai daqueles que por despeito me acusam de avarento, mesquinho ou até mesmo pão duro. A todos eu ignoro, não me dando o direito de gastar nem mesmo palavras para rebater tão injustas críticas. A esses que têm por hábito gastar seu tempo caluniando pessoas de bem, deixo apenas uma dose mínima do meu desprezo. Não gasto meu tempo com pequenas ninharias como religião, amizade ou até mesmo amor. Sou a favor da praticidade aliada ao bom senso. Pensem comigo: um homem sem dinheiro, mas com amizade pode chegar a algum lugar, porém terá que dividir boa parte do que conquistou com aqueles que o ajudaram a chegar ao topo. Por sua vez um homem que se esforça para chegar ao topo, e no caminho não se deixa envolver com quem quer que seja, pode até demorar para chegar lá, mas quando chegar, não haverá ninguém que venha lhe cobrar direitos. Fazer o bem sem olhar a quem poderia até dar certo caso o “quem” em questão tivesse a dignidade de retribuir com juros e correção monetária todo o investimento social e financeiro nele aplicado. Amigos, amores e Deus, são coisas que podem ficar em segundo plano. Só me apego aquilo que posso ver, tocar e de preferência, possuir. Sou fiel aquilo que tenho, ao que conquistei e ao que desejo conquistar.
  


INVEJA



Abro meus olhos e me fixo no objeto de desejo. 

Ter e não ser: eis a questão! Tenho tudo o que quero, consigo tudo que almejo, mesmo assim, sou um constante escravo de uma coisa pequenina chamada DESEJO. Tenho posses, dinheiro, carros e luxo. Porém em meu pensamento, tudo o que tenho se torna relativamente pequeno se comparado com aquilo que meu semelhante vem a ter. Esse desejo que me angustia, essa vontade que me domina, é quase um inferno em vida, Eu me esforço para ser notado aonde eu chego. Eu sou bom naquilo que faço, mas não tão bom a ponto de despertar a atenção daqueles que estão num patamar acima do meu. Estou há dez anos no mesmo emprego, no mesmo cargo e nunca, jamais, em hipótese alguma consegui me sobressair em alguma coisa. Aí eu me pergunto: por que não eu? Minha falta de sorte é tão notável que nem mesmo a deliciosa alcunha de “funcionário do mês” eu consegui abocanhar. Até aí tudo bem, se você não levar em consideração o fato de que no meu setor só tem doze funcionários. Nesse exato momento eu me resignei a encarar os fatos como eles realmente são: eu sou uma vítima constante de um destino mal traçado. Preciso aprender a conviver com esse desejo que as pessoas têm em fazer da minha vida um inferno na terra.  Me incomoda ver a ascensão daqueles a quem julgo serem menores do que eu. Só de imaginar que alguém se apossou de alguma coisa que estava destinada a ser minha, meus instintos fervem. Desejo tudo o que eu mereço e ninguém mais tem o direito de ter aquilo que por ventura é meu. A insônia me acompanha nas noites em que me vejo a desejar aquilo que é do outro. Desejo com uma fúria alucinante, como se mil serpentes me açoitassem e com um furor desmedido, como se meu corpo ardesse feito um vulcão em fúria. Um desejo bestial, uma sede em adquirir o que é do outro, sabendo intimamente que o bem desejado, seria muito melhor aproveitado por mim. Sofro com essa loucura mórbida que se estende por cada parte do meu ser. O desejo que cresce e que me acompanha aonde quer que eu vá, esteja onde estiver. Fixo meus olhos em algo, ou alguém, e imediatamente sei que aquilo não deve existir caso não me pertença ou esteja subjugada a mim

VAIDADE



Oi! Talvez você não me conheça. Mas é bem possível que já tenha escutado sobre mim.

Aliás, acho bem difícil que você não tenha ainda se descoberto encantada com meus atributos. Afinal, um exemplar da espécie humana como eu não é encontrado em qualquer lugar. Eu sempre tive consciência do meu papel na sociedade. Vim ao mundo para trazer mais beleza para ele. Trago comigo o desejo de ser cada vez melhor em tudo o que me proponho fazer. Nem preciso me esforçar para ter dos outros aquilo que quero. Um olhar, um gesto e todos caem aos meus pés. Mulheres, homens, velhos e crianças. Todos se rendem ao meu charme inigualável. Sei que tenho poder. O poder de ser quem eu quiser e de ter quem também me queira, ou seja: noventa por cento da população dessa cidade. Gritos histéricos, chantagens emocionais, a tudo sou submetido, como uma espécie de castigo por ser quem eu sou. Eu sou o pecado mais formal, eu sou o alvo do desejo de todos os mortais. Tenho tudo o que lhe falta. Sou o seu complemento em todos os sentidos. Sou senhor soberano e absoluto das tuas verdades, trago desenhado em meu peito a rota dos teus desejos. Aos que me desdenham, resta-me apenas um sorriso de canto de boca. Meus perfeitos lábios desenham em minha bela face a expressão de satisfação por ver em seu rosto, a vontade de me possuir, de me levar para casa. De fazer do meu corpo e da minha alma insensível   Um refúgio para tuas dúvidas e anseios. Não vivo neste mundo para ser servido e sim, para servir. Sirvo de alento para as inquietações da alma dos pobres seres que se debatem pela minha presença, que lutam entre si para conseguir um décimo da minha atenção. Sei que estou acima de todos eles. Por isso mesmo, tenho o dever de deixá-los usufruir de mim da maneira que eles, pobres mortais, acharem correta. Nunca estarei satisfeito, jamais me darei por vencido. Se sou o melhor, mereço receber o melhor daqueles que me cercam. Não tenho culpa de ser assim, se sou do jeito que sou, é por que necessito servir para alguma coisa. E sirvo para tudo: dos desiludidos aos desesperados, dos carentes afetivos ou até os abandonados.  Sirvo para quem não tem esperança, despertando nesses pobres coitados a esperança de me possuir. Sou uma alma indomável, amado, invejado, odiado ou admirado, porém jamais ignorado. Não me importo de ser assim, assim serei até morrer, apenas peço aos que me julgam sem me conhecer, que me conheçam por extenso, antes de dar o seu parecer, pois afinal sou o melhor em tudo, eu sou o tal, muito prazer!

LUXÚRIA


Uma vítima! É isso que sou, uma eterna vítima dos meus desejos, instintos que muitas vezes me levam a cometer verdadeiras insanidades.  Sou senhor daquilo que acredito, e eu acredito fielmente que todos nós devemos amar sem limites. Não aquele amor que escraviza, domina e que faz de todos os seres humanos capachos patéticos da vontade do outro.  Por isso sou extremamente voraz em todos os meus caprichos. Sabe, já fui muito puritana, a ponto de acreditar que um dia receberia minha recompensa assim que chegasse no céu. Pouco tempo depois, descobri que há meios muito melhores para se chegar até lá. Sou capaz de tudo para manter meu desejo aceso e saciado, não me preocupando se o que vem seja quantidade ou qualidade. Nessa vida há de se experimentar de tudo e com todos. Somos preparados desde o início para conviver com o prazer e a volúpia, mesmo que indiretamente.  Prazer que está enraizado nas vontades mais obscuras do ser humano:

Incesto, masoquismo, fetichismo, masturbação: AMOR LIVRE!

Uso meu corpo como uma extensão para tudo o que eu desejo. Me dobro, me jogo, me atiro sem esperar uma rede de proteção. Sou uma eterna adoradora da lascívia e da sensualidade. Corpos nus se estendem sobre a cama, num eterno vai e vem, em que se atritam e se rendem a um gozo de múltiplas sensações. Sei que sou julgado, condenado e constantemente apedrejado por aqueles que, por inveja ou por medo, quem sabe, não se rendem aos seus desejos.  Eu sou a vergonha dos olhos das donas de casa, eu sou o olhar da beata fanática, eu sou o seu desejo escondido e renegado. Eu sou a luxúria, nascida dentre a paixão, que se transforma em ira quando insatisfeita. Eu sou insaciável, passiva como um anjo, ou indomável como um demônio. Eu sou a porta de acesso ao um mundo obscuro. Te conduzo por caminhos tortuosos, mas inegavelmente excitantes, faço você se render aquilo que você mais teme. Ah, como me acalenta a alma feito um bálsamo esse teu jeito assustado perante meus devaneios. Meu corpo anseia pelo complemento do seu. O ofegar da sua respiração faz com que eu perca a noção de tempo e espaço. Sou seu refém! Prenda-me com seus olhos, morde-me com tua boca ávida pela minha pele. Sente o gosto do meu beijo, o calor dos meus delírios, o desejo estampado nos meus olhos. Coma-me com teus olhos sedentos.

Rasga minhas vestes como fossem feitas de papel!

Papel que eu utilizo para descrever em detalhes toda minha volúpia por este momento tão esperado. Cavalgo pelo teu corpo como uma amazona na fúria da batalha. Sinto teu gosto de fera na minha boca que se abre para receber mais uma parte de ti. Adentra-me com tamanha sede que sou capaz de visualizar um oásis em meio ao deserto dos meus desejos.  Conduzo-te a um vale de sensações, em que o medo e a dúvida já se dissolveram. Aos poucos vou perdendo a noção da realidade, nossos corpos já não podem ser distinguidos separadamente, co-habitamos um ao outro numa simbiose perfeita. Nosso ritmo se perde da mesma forma como perdemos a consciência. O toque dos meus dedos em seu corpo estendido te traz de volta a realidade. E com ela, a sensação de dever cumprido. 


Deixais se dominar pelas paixões ó homens de pouca fé!