quinta-feira


De Olhos Fechados
DE THIAGO RIBEIRO
Personagens:

Nestor
Alberto
Simone

 (A peça se passa num velório. Não se vê o morto. Apenas dá se a impressão que o morto está numa sala ao lado.)

(Abrem-se as cortinas. Alberto e Simone estão sentados nas cadeiras. Estão exaustos, como se estivessem saindo de uma longa jornada. Copos vazios em cima da mesinha de centro denunciam uma vigília de longas horas. Alberto cochila. Está visivelmente exausto. Simone folheia um álbum de fotografias.  Vez ou outra para e contempla saudosamente uma foto. Entra Nestor. Assim como os outros dois, está abalado e com um aspecto horrível de quem não dorme há dias).

Nestor (sentando) – Pronto. Assinei todos os documentos necessários para o enterro.

Simone (fechando o álbum) – Ainda bem que você está aqui, Nestor. A Nice não tem condição nenhuma de resolver qualquer coisa agora. E também nem poderia, dadas as circunstâncias.

Nestor – Eu ainda não consigo acreditar que tudo isso está acontecendo. O Heitor ali, naquela sala, morto. Engraçado, num segundo tudo que a gente viveu, tudo que a gente tem pra viver some, desaparece como num passe de mágica.

Simone – Realmente. A morte é uma coisa difícil de enfrentar.

Nestor – Tudo é difícil de enfrentar quando se perde a fé na vida.

Simone - E quem disse que o Heitor tinha perdido a fé na vida?

Nestor – Não era segredo pra ninguém que ele tava tendo crises de depressão mais uma vez.

Simone (alisando o álbum, saudosa) – Mais uma daquelas intermináveis crises. Eu lembro que quando a coisa apertava ele ligava pra minha casa pedindo colo. Dizia que me amava, e que somente eu o compreendia. No fundo ele era infeliz. Mas não queria admitir. Queria sempre manter a pose de intelectual acima do bem e do mal. Se achava no direito de não preocupar os outros com seus problemas.

Nestor – Ele sabia dessa imagem que você tinha dele?

Simone – Sabia. Nós não tínhamos segredos um com o outro. É por isso que quando a coisa estava feia, era eu que ele procurava.

Nestor (pensativo) - A gente sempre volta para o lugar onde foi feliz quando a coisa aperta.

Simone (acende um cigarro) – Você acredita que o Heitor era feliz? (oferece um cigarro) Quer um?

Nestor – Não, obrigado. Parei há um tempo.

Simone – Você não me respondeu. Você acredita que o Heitor era feliz?

Nestor – Depende do que você chama de felicidade. O que é pra você?

Simone – O quê?

Nestor – Felicidade.

Simone – Sei lá. Ter uma vida estabilizada talvez? Filhos encaminhados, um casamento sem vícios, um emprego seguro.

Nestor – Ou seja, uma vida regrada e sem emoções.

Simone – E quem disse que pra ser feliz é preciso ter emoção? Tendo uma vida segura e um lugar pra me esconder do mundo quando a coisa apertar, eu já me dou por satisfeita.

Nestor (distante) – Eu não me imagino vivendo sem emoção. Viver sem emoção pra mim, é viver sem felicidade.

Simone - Pois pra mim o mais importante é viver. Seja com emoção ou não. E não terminar desse jeito como o Heitor. Morrer por um motivo que eu nem sei direito se existe.

Nestor – O suicídio é que nem traição. Não precisa de um motivo, e sim de um lugar pra acontecer.

Simone – É duro pensar desse jeito, mas é uma verdade que nós temos que encarar assim mesmo.

Nestor – No fundo, no fundo o Heitor era só um sonhador. Um louco romântico que ainda acreditava nas pessoas. 

Simone – No fundo, no fundo, todos nós ainda acreditamos nas pessoas, Nestor. Só que cada vez, com menos convicção.

(Alberto se mexe e muda de posição na cadeira)

Nestor – O Alberto tem sorte de conseguir dormir. Eu não consigo pregar o olho faz três dias. O sono tem fugido. Com certeza pra me poupar de rever os antigos fantasmas.

Simone – Fantasmas não existem Nestor. O que existe é a dor na consciência. Saber que o Heitor morreu brigado com você não deve ser uma coisa muito agradável. Ainda mais vocês dois, que eram tão amigos.

Nestor – Nós não brigamos. Apenas discordamos de alguns pontos de vista. É diferente. O Heitor não se conformava da minha opinião política. Esse negócio dele ser de esquerda afetou seriamente nossa relação. Não que eu me importasse, mas ele era um cara que queria sempre impor a opinião dele.

Simone – Não era assim, também Nestor. O Heitor era um cara que queria o melhor pro país.

Nestor – E eu quero o quê? Por acaso eu quero que o Brasil vá à merda? Não. Só que eu quero que o meu país esteja em primeiro lugar em alguma coisa que não seja futebol e samba.

Simone – Sim, meu querido, só que para isso você precisa botar a mão na massa e não ficar só criticando. Era isso que o Heitor queria que você entendesse.

Nestor – Botar a mão na massa? Mais do que eu já faço? Me matar naquele jornal, tentando despertar uma consciência política nas pessoas não vale de nada?

Simone (Irônica) - Com certeza. Meter o pau na política através de uma coluna num jornal que todo mundo sabe que é pau mandado do governo faz muita diferença. Ô Nestor! Essa sua cruzada não serve pra nada. É dar murro em ponta de faca.

Nestor (Irritado) – É por isso que eu evito conversar com você sobre esse assunto. Vocês jamais vão conseguir entender as minhas posições. Eu já passei do estágio de acreditar que eu tenho o poder de influenciar alguém. Ainda escrevo no jornal, mas sabendo que isso não vai modificar grande coisa.

Simone – Pensando desse jeito você vai contribuir menos ainda. Sem paixão não se consegue mudar o mundo, Nestor. A gente tem que acreditar que a menor atitude poderá render grandes acontecimentos.

(Alberto acorda com a discussão)

Alberto (Sonolento) – Que discussão é essa? Trocando farpas novamente?

Simone (maternal) – Ô Alberto. Vai pra casa, tomar um banho, descansar. Você ta aqui desde cedo. Precisa descansar um pouco.

Alberto – Obrigado Simone, mas eu não quero deixar o Heitor aqui. São nossos últimos momentos juntos. (Pensativo) Sabia que hoje faz dois anos que voltei da Europa? Eu tava numa puta insegurança em relação ao que me esperava aqui no Brasil e ele foi me encontrar no aeroporto. Fiquei hospedado dois meses na casa dele. Até saber o que fazer da vida. (Despertando) A Simone te mostrou o álbum Nestor?

Nestor – Que álbum?

Simone – Ainda não mostrei a ele Alberto. (Para Nestor) A Nice encontrou no meio das coisas do Heitor no escritório. É um álbum com fotografias dos nossos momentos de amizade plena, como ele costumava dizer. (Pega o álbum e estende a Nestor) Toma!

Nestor – (Hesita) Não sei se devo reviver essas memórias. O que passou, passou.

Alberto – Você não costumava ser assim tão duro. O que aconteceu?

Simone – Deixa Alberto, ele está se fazendo de durão, de muito forte. Mas no íntimo ele não está tão seguro assim como quer aparentar.

Nestor – E não estou mesmo. Sinto uma dor me apertando o peito, uma angústia que não me deixa em paz...

Simone - Culpa. Culpa por não está sentindo a morte do nosso amigo como deveria.

Alberto (repreendendo-a) - Simone!

Simone – Mas é verdade Alberto. A verdade é que o Nestor sempre teve inveja do Heitor, por que o Heitor era um homem de palavra. Um homem que ia trás do que queria, dos seus sonhos. Mesmo que batesse com a cara na parede, ele ia em frente. Um homem de verdade.

Nestor (tenso) – Pára, isso não é verdade!

Simone – Você sabe que é verdade Nestor. Diz logo de uma vez por todas que você não suportava a idéia de não ser o homem que o Heitor era. Diz.

Nestor – (explodindo) Chega! Chega! Eu não vou confessar nada! Eu não tenho nada pra confessar. Eu tenho sentimentos pombas. É claro que eu estou sentindo a perda do Sérgio. Mas eu não tenho que ficar chorando por aí, pra mostrar o quanto eu admirava ele.

Simone – Palavras, palavras. Palavras ao vento constroem grandes discursos, Nestor. Você mais do que ninguém devia saber disso.

Alberto – Chega! Simone! Nestor! O que está acontecendo? Eu não estou reconhecendo vocês. A gente tá aqui pra se despedir do Heitor! Esse fogo cruzado não vai trazer ele de volta. Pôxa gente! Nós estamos aqui por ele! O cara que fazia a gente se sentir importante. (A Nestor) O cara que agüentou seus porres quando a Lúcia quis se separar de você, Nestor. (A Simone) O cara que foi te buscar quando você teve aquela crise de depressão por causa da morte da sua mãe lá no interior de Minas. O cara que se importava com a gente.

Simone (Chorando) – Desculpa gente. Mas é que o Heitor não tinha o direito de fazer isso. De me abandonar à própria sorte. Sem ninguém.

Alberto (abraçando-a) – Ô minha amiga. Eu tô aqui. Do seu lado. Eu acho que a gente deve se apoiar nesse momento. Como a gente sempre fez nas horas difíceis.

Nestor (levanta e vai olhar pela janela) – O problema é que a gente só tem tido momentos difíceis. Porrada atrás de porrada. A minha vida vale menos que os meus problemas.

Alberto – A vida tem o valor que a gente dá a ela, Nestor. Aprende uma coisa: nós somos as sombras das nossas decisões. A culpa da morte do Heitor pode ser do acaso, do destino, do que você quiser chamar. Mas não é nossa. Não é sua, não é da Simone, não é minha, não é de ninguém. Ele desistiu de viver. O que mais poderia ser feito? Nada!

Simone – Não Alberto! Eu sei que eu poderia ter feito alguma coisa pra impedir que ele fizesse essa loucura.

Alberto – Simone, Simone! Pare de pensar como se você carregasse o mundo nas costas. O Sérgio ia levar o plano de suicídio dele adiante com ou sem você por perto. (Pega o rosto de Simone nas mãos) Você não ia impedi-lo. Você não tem esse poder.

Simone – Sabe que esse seu conformismo me espanta? Você aceita as coisas tão passivamente.

Alberto – Não é conformismo, é uma aceitação do óbvio. Ninguém muda o pensamento de ninguém. Mesmo que você pudesse influenciar um pouco na decisão do Heitor, ele só ia mudar de idéia, caso ele quisesse. Portanto minha querida, se isente dessa culpa sem sentido.

Simone (Se levanta) – Eu vou lá na sala ver se a Nice tá precisando de alguma coisa. Vou trazer um café. Vocês querem?

Nestor – Eu quero sim.

Alberto – Eu to legal.

(Simone sai. Nestor se senta na cadeira e desaba).

Nestor – Meu Deus do céu! Como eu queria que se abrisse um buraco na terra e me engolisse! Me levasse pra longe desses problemas.

Alberto – Se isso fosse possível, eu garanto pra você que metade da população mundial já teria sumido. E eu meu caro, seria um desses sortudos.

Nestor (Surpreso) – Você? Difícil de acreditar que o rei do bom senso tenha vontade de sumir do mapa.

Alberto – Tem muitas coisas sobre mim que vocês não sabem. A começar por essa idéia de que eu sou bonzinho de nascença, o compreensivo, o ombro amigo, o colo que todo mundo procura.

Nestor – E não é?

Alberto – Não. A gente nem sempre é aquilo que demonstra ser.

Nestor – Por que?

Alberto – Medo talvez.

Nestor – Medo? De quê?

Alberto – Sei lá. Da vida, do que os outros vão achar. De si mesmos.  As pessoas deixam de fazer o que vale a pena pra fazer o que a sociedade acha certo.  E o que é bom pros outros nem sempre é bom pra gente.

Nestor – Eu nem sei o que é bom pra mim mais. Minha vida anda tão sem sentido.

Alberto – Pois dê um sentido a ela! Saia, viaje, conheça gente. Transforme essa tristeza sem sentido num motivo pra viver. Não esqueça que a vida passa. Num instante tudo o que a gente poderia ter feito e não fez, cresce e vira uma imensa frustração. Um sentimento de culpa por não ter tentando, e raiva de si mesmo por não ter tido a coragem de arriscar.

Nestor (desiludido) – Ouvindo você falar assim parece fácil. Mas eu não tenho mais idade nem disposição pra ficar me aventurando dessa forma desregrada que você está sugerindo.  

Alberto - E vai fazer o quê? Vai ficar parado vendo o tempo passar sem nenhuma perspectiva. Sem sonhos nem ambições?

Nestor – Eu deixo o sonho para os jovens. Pra quem tem a vida toda pela frente. Pra quem ainda acredita que esse mundo pode ser mudado. Pra quem acha que a vida pode valer a pena num país como esse.

(Entra Simone trazendo uma bandeja com cafezinhos).

 Alberto – Pois saiba meu querido amigo, que enquanto houver um sopro de ar nos meus pulmões, eu vou continuar acreditando que a vida vale a pena. (A Simone) E a Nice? Como ta?

Simone – Como pode né, coitada. Fazendo sala pra um monte de gente que não fala de outra coisa a não ser sobre como o suicídio afeta o desenvolvimento espiritual do morto. Saí da sala depois de dois minutos. Não agüentei essa hipocrisia.

Alberto – Minha querida, as pessoas precisam se agarrar em alguma coisa. Uma tábua de salvação para mantê-las vivas. A religião é só uma forma de driblar os mistérios do universo.

Nestor – O Heitor tinha pavor a misticismo. Dizia que acreditava em uma força superior e só. O resto era fruto do fanatismo e da carência das pessoas.

Simone – Eu fico me perguntando o que vai ser da Nice agora. O que será que ela vai fazer? Voltar pra Minas pra morar com os pais?

Nestor – A Nice é uma coitada. Passou a vida toda tentando compreender o Heitor.

Simone – A verdade é que o Sérgio não amava a Nice. O que ele precisava era de alguém que estivesse a postos toda a vez que batesse a insegurança. E a Nice era esse alguém.

Nestor – Eu acho isso uma coisa extremamente cruel. Usar uma pessoa como porto seguro, sem que ela receba nada em troca.

Simone – No entanto vocês homens fazem isso o tempo todo.

Nestor – Taí! A história sempre descamba pro lado da sexualidade. Vocês mulheres não conseguem separar comodidade de machismo.

Simone – E o que é o machismo senão uma forma muito primária da comodidade masculina heim? Me diz!

Alberto – Sabe o que eu acho? Que vocês estão levando a coisa pro lado pessoal. A Nice sempre soube que o Heitor não morria de amores por ela. Era uma relação estranha. Uma simbiose, talvez.

Simone – Uma mulher jamais aceita viver com um homem que não a ame, a não ser que ela alimente a ilusão de que um dia, vai receber de volta tudo o que deu a ele. Dava dó ver a pobrezinha ligando pra todos os amigos do Heitor de madrugada pra saber se onde ele estava.

Alberto – Quase sempre na farra.

Nestor – Era um grande farrista, nosso amigo Heitor! Era um homem que sabia aproveitar o melhor da vida.

Alberto – E o que seria o melhor da vida?

Nestor – Pára de encher o saco com essas perguntas sem sentido Alberto.

Alberto – Mas a vida é uma aventura sem sentido meu caro. Só nos resta aproveitar. Embarcar sem ter hora pra voltar.

Nestor – Eu já te disse que não tenho mais...

Alberto (Imitando-o) – ... tempo nem disposição para tais aventuras. Você precisa se jogar mais Nestor. Simone, acredita que nosso grande jornalista está em crise de meia idade?

Simone (pegando o álbum) – Claro que acredito. O tempo passa pra todo mundo e o Nestor não é uma exceção à essa regra!

Alberto – O Heitor era uma exceção. Mesmo com o passar dos anos, ele continuava com o mesmo jeito de vinte anos atrás.

Nestor (Irritado) – Exceção de quê? Por acaso ele era mais homem que todos os homens? Vocês estão criando uma imagem mítica de um cara que era gente de carne e osso como eu.

Simone (magoada) – Ele era mais do que um homem.

Nestor – Só falta agora você me dizer que o Heitor era um deus.

Simone – Ele era sim, mais que um homem. Ele era alguém que não se importava com mesquinharia. Que era capaz de tirar a roupa do corpo e dar pra quem não tinha nada só pra poder fazer o bem. Por isso morreu assim. Por se atormentar demais com os problemas dos outros.

Alberto - Também não é assim Simone. O Heitor era uma pessoa maravilhosa, um ser humano ímpar, mas ele se matou por que não aguentava mais viver preso a essa vida que ele levava.

Nestor – Que vida? Que eu saiba o Heitor não tinha problemas financeiros, não era doente, não tinha nenhuma questão existencial, nada disso.

Simone - Como não tinha? E as depressões heim? Você acha depressão pouca coisa?

Nestor – Pouca coisa não! Mas um bom psicanalista resolve.

Simone – Nossa! Quanta sensibilidade! É difícil acreditar que você tenha sido amigo do Heitor. Vocês são como água e vinho.

Alberto – Por isso eram amigos. Não é nas semelhanças que se constroem as amizades. Mas nas diferenças. A gente busca no outro, aquilo que gostaria de ter ou de ser.  

Simone – É. Faz sentido.

Nestor – Essa sua última viagem te fez muito bem Alberto. Você voltou mais sereno. Mais tranqüilo.

Alberto – É o amor meu caro.

Simone – Amor? (Curiosa) Você ta namorando Alberto? Quem é?

Alberto – Não tô namorando ninguém. Estou num relacionamento comigo mesmo. Eu me basto!

Nestor – Queria ter esse seu otimismo.

Alberto – Não é otimismo meu amigo. É amor próprio. Resolvi deixar de investir em tudo que me fazia sofrer ou que não valia a pena. Agora eu invisto em quem gosta de mim. E no topo da lista estou eu! Me amando e botando pra cima, como tem que ser.

Simone – E assim caminha a humanidade. Cada vez mais torta.

Alberto – E cada vez mais interessante.

Nestor – Pra quem gosta de viver perigosamente?

Alberto – Não! Pra quem gosta de enfrentar os desafios da vida!

Simone – O Heitor gostava de um bom desafio.

Nestor – É. Gostava.

(Black. Quando a luz acende Alberto e Simone estão vendo fotos no álbum. Ambos estão rindo, relembrando os acontecimentos das fotos).

Alberto – Olha só você aqui! Dezesseis anos. Bela como uma escultura grega.

Simone (agradecida) – Não exagera Alberto. Eu era bonitinha. Simpática. Nada mais. Não tinha nada de escultura grega.

Alberto – A beleza está nos olhos de quem vê. Ou melhor, de quem quer ver.

Simone – Nessa época eu era uma pessoa menos amarga. Dá pra ver pelo brilho nos meus olhos.

Alberto – Você era mais feliz?

Simone – Eu achava que sim. Era mais iludida. Tinha uma ilusão sobre tudo. Sobre o amor, sobre a profissão, sobre a vida.

Alberto – E hoje não tem mais nenhuma dessas ilusões?

Simone – Perdi todas elas, uma a uma. Pouco a pouco. No final, nem foi uma perda tão ruim. Aprendi a encarar as coisas como elas realmente são. Sem firulas ou romantismo.

Alberto – Nossa! Do jeito que você fala, parece até que nada mais vale a pena.

Simone – Eu cheguei num ponto em que preciso pesar todas as minhas decisões para ver se minhas ações valerão a pena. E acredite, metade delas não vale.

Alberto - Sabe o que ta faltando na sua vida? Amar de novo. Se apaixonar de novo. Achar um cara que te desperte o tesão pra vida novamente.

Simone (ri nervosa) – Que irônico você falar de vida num ambiente desses.

Alberto – Vida e morte vivem interligadas querida. Uma faz parte da outra.

Simone (olhando uma foto) – Olha só essa aqui. Nesse dia eu levei o Denis pra conhecer o Heitor.

Alberto - Sempre achei que você fosse apaixonada por esse cara. Jurava até que vocês iam se casar.

Simone – Não meu amor, eu ainda não tenho coragem de enfrentar a morte cara a cara.

Alberto – Mas quem está falando de morte? Eu estou falando de casamento.

Simone – E o casamento é o quê senão a morte?

Alberto – Nossa Simone! Que visão pessimista da coisa.

Simone – Não é pessimista Alberto. É a mais pura realidade. Você pega um casal desses, tipo o Nestor e Lúcia. Dezoito anos de casamento. E a felicidade? Existe? Claro que não. Se foi no exato momento em que eles disseram “sim” no altar.

Alberto – Tem gente que tem uma visão mais romântica do casamento.  Mocinhas de novela sempre terminam bem.

Simone – Não terminam não. A maioria delas sempre acaba casando. E isso pra mim não é final feliz.

(Nestor entra)

Nestor – Ainda revirando o passado? Imaginando tudo o que poderia ser diferente se a gente tivesse optado por outros caminhos?

Simone – Você acha mesmo que a gente tem esse livre arbítrio todo? Honestamente, eu não me julgo tão importante.

Nestor – Como assim? Não entendi.

Simone – Isso de poder decidir sobre o que fazer da vida.

Alberto – Ninguém sabe o que fazer da vida. Alguns até supõem o que querem e vão seguindo de uma forma meio doida, mas saber mesmo ao certo, ninguém sabe.

Nestor – Eu acredito na mão de Deus.

Simone – Muito mais cômodo colocar a culpa nas costas de Deus.

Nestor – Se é cômodo eu não sei, mas que é mais prático, isso é.

Alberto (divertido) – Uma vez meu analista me perguntou se eu tinha alguma idéia de onde vinham os meus problemas.

Simone – E o que você respondeu?

Alberto (divertido) – Eu disse que se eu tivesse essa resposta eu não estaria fazendo análise.

Nestor – Bela resposta.

Alberto – Eu conversei muito com o Heitor sobre isso. Essa minha mania de tentar achar uma explicação lógica e racional pra tudo. Ele disse que eu tinha que deixar de ser mais racional e me tornar mais passional.

Simone – Ser passional não ajuda em muita coisa.  Pelo contrário, faz você perder o controle da situação.

Alberto – Tem momentos em que perder o controle é a coisa certa a se fazer.

Simone – Não sei onde isso se aplica.

Alberto – Eu quis dizer que você ter tudo programado, esquematizado na sua vida, é um saco. O bom é você poder acordar de manhã e poder fazer tudo diferente. Jogar tudo pro alto. Fazer exatamente o inverso do que foi programado. Não por que alguém determinou, mas por que você quis.

Simone – Isso é uma utopia. Só os ricos fazem isso.

Alberto – E os hippies.

Simone (rindo) – É verdade. Ás vezes eu queria que o tempo congelasse. Que eu parasse de envelhecer, de criar cabelos brancos e de cansar ao menos esforço físico. Queria tudo se conservasse assim.

Nestor – O que vocês acham que passou pela cabeça do Heitor pra ele fazer uma coisa dessas?

Simone – Confesso a você que eu daria um dedo da mão pra saber.

Alberto – Você sabe.

Simone (espantada) – Sei?

Alberto – Sabe. Você sabe, o Nestor sabe, eu sei. Todo mundo sabe. Heitor morreu porque cumpriu a sina dele aqui. Morreu por que achou que já tinha vivido tudo o que valia a pena. Morreu pra se preservar da piedade alheia.

Simone – Mas o Heitor não tinha por que ser vítima da piedade alheia. Se tem uma coisa que ele nunca foi, foi vítima.

Alberto – Existem muitas formas de ser vítima. Nós somos vítimas o tempo todo. Só que uns são conscientes, outros não.

Nestor – Eu fui vítima de uma instituição chamada família. Nunca consegui manter a minha feliz por muito tempo. Fracassei nesse ponto.

Simone – Pelo menos você tentou meu caro. Pior foi o meu caso, que nem ao menos me dei ao luxo de arriscar. Lapsos de covardia me impediram de tentar mais esse auto-suicídio.

Alberto – Por que você acha que falhou nessa questão familiar?

Nestor – Pelo simples fato de não conseguir que as pessoas que estavam no meu lado se sentissem seguras, confortáveis. Felizes mesmo!

Simone – E você se culpa por isso?

Nestor – E existe outro culpado?

Alberto – Deus?

(Os três riem)

Simone – O que vai ser de nós agora? Sem o Heitor pra nos apoiar?

Alberto (distante) – Vamos ter que encontrar nossos próprios caminhos. Sem ajuda. Sem piedade.

Nestor – A vida continua. O Heitor parou a vida dele, mas a nossa segue adiante.

Simone – Vou pedir a Nice pra me dar o álbum de lembrança. Vai ser uma recordação dos nossos bons momentos.

Alberto (num rompante) – Sabe o que estava pensando? Que a gente poderia ter mais momentos como esse heim? Vamos pegar um avião pra bem longe daqui. Um lugar onde a gente seja livre. Sem cobranças, sem mundo real, sem nada que nos obrigue a...

Nestor – Chega Alberto. Chega de tentar fugir dos problemas. Aprende uma coisa. Não importa o quão longe você esteja. Os problemas vão sempre te perseguir. Você pode fugir de tudo e de todos. Mas não pode fugir de você mesmo.

(Alberto começa a chorar copiosamente. Simone o abraça).

Alberto – Eu que devia ter ido no lugar dele. Eu que deveria ter morrido.

Simone – Não diz isso Betinho! Você mesmo falou. Ninguém tem culpa de nada. Isso foi uma fatalidade.

Nestor (olhando no relógio) – Vamos embora. O enterro já vai sair.

Simone (abraça Alberto) – Eu vou no banheiro dar um jeito no rosto e dar uma força pra Nice. Trata de se ajeitar pra seguir com a gente. (Com a voz embargada) Como você quer que eu siga sem meu porto seguro, hã? Quem vai lidar com as minhas inseguranças, heim? (Alberto sorri forçado, limpa os olhos com a manga da camisa) Levanta e vem com a gente. Tô te esperando lá fora.

(Sai)

Nestor – Ta sendo difícil pra mim também. Pode acreditar. Eu vou sentir falta dele. Mais do que você possa imaginar. (Pega no ombro de Alberto. Vai dizer mais alguma coisa e desiste. Sai.).

(Alberto se levanta. Anda de um lado a outro. Vê o álbum na mesa de centro. Senta e abraça-o. Chora)

Alberto - E naquele momento eu pude perceber que nada mais seria com o antes. Que minha alegria nunca mais seria a mesma. O meu sorriso não seria mais verdadeiro. Não sem você. A sua ausência meu amigo, me fez perceber o quanto é importante se dizer certas coisas. E na hora certa. Às vezes eu me arrependo das oportunidades que desperdicei. As palavras que ficaram engasgadas na garganta. Se o tempo pudesse voltar, talvez eu fizesse tudo diferente. Talvez tivesse me empenhado mais para que você soubesse o quanto é importante para mim. Agora eu me encontro num lugar estranho, com pessoas estranhas, com sentimentos estranhos. E em todos os momentos em que me sinto solitário, olho para as estrelas e me lembro de você. Isso faz com que eu me sinta forte novamente. Sei que esteja onde estiver, você está me iluminando com sua presença confortadora. A vida é um ciclo. Uma sucessão de acontecimentos que independem da nossa vontade. Se dependesse de mim, jamais você teria ido embora. Se dependesse de mim, você estaria aqui. Comigo.

(Black)          

                                                                                                                                 Fim

sexta-feira

ANTES DE PARTIR


Um ROTEIRO DE THIAGO RIBEIRO

“Por quê você não foi embora enquanto ainda estava em meu coração? Agora que você habita a minha alma vai doer mais...”.


(Abre-se a cena. Estamos em um apartamento de tamanho médio, decorado humildemente, típico de um casal jovem. As ações acontecem na sala e na cozinha, que é uma cozinha básica, sem muitos enfeites, num ambiente sóbrio contrastando com as idades dos personagens. Na sala uma mesa no centro, com cigarros, chaves, um copo sujo e algumas moedas. Almofadas pelo espaço, e num canto uma pilha de jornais/revistas. Uma tv pequena se encontra ligada e sintonizada num telejornal qualquer. )


Ele se encontra sentado no chão, a cabeça entre as pernas, imóvel, acuado como se estivesse em transe. Ela está de costas para ele e de frente para a janela).

ELA – (virando para ele) Eu vou embora.

ELE – Por quê?

ELA – Por que eu quero. Por que não tenho mais pra onde ir. Eu já cheguei no meu limite aqui entre essas quatro paredes. Eu vou embora. (T) Eu vou te deixar. Eu preciso te deixar.

ELE – Pra onde você vai?

ELA – Não sei. Vou sair por aí. As melhores viagens são as que não têm destino certo. Preparei minha mala com pouca coisa. Tô levando o mínimo de bagagem possível.

ELE – Desde quando você ta planejando isso?

ELA - Você sabe... Esse sempre foi meu projeto de vida.

Ele – Com a diferença de que antes eu tava incluído nesse projeto.

Ela – (sentando na frente dele e pegando o rosto dele com as mãos) Mas agora você ta livre pra viver os seus projetos. Pra construir tudo o que você sonhou, tudo o que você sonha!

Ele – Eu não sei quais são os meus projetos. Quer dizer, eu até sei, mas todos eles estão ligados a você.

Ela – Bobagem, tudo o que se tem a fazer é cortar o que você planejou pela metade. O resultado vai ser a quantia ideal pra você. (Levanta e vai ao banheiro).

(Ele olha em volta de si, como se percebesse de repente o quão vazia era a sua vida. Vazia de tudo, de carinho, amor, bens materiais. É como se o que ele achava que era tão bom, subitamente não fosse realmente bom. Algo se quebrou.)

Ele – Quando acabou?

Ela – (Em Off) O quê?

Ele – (Fala mais alto) Quando acabou esse lance todo que a gente viveu?

Ela – (Voltando) Esse lance ridículo que os homens chamam de tolice e as mulheres de amor? (Ri) Sei lá. Eu não tenho essa resposta. Acho que ninguém nunca tem a resposta pra essa pergunta. (Séria) Mas caramba, por quê que você sempre tem que fazer essas perguntas sem sentido nas horas mais impróprias?

Ele – E quem disse que essa hora é imprópria pra saber o quê que aconteceu com a gente?

Ela – Eu to dizendo. Eu sei o que é melhor pra gente. (Pausa. Acende um cigarro) Você precisa apagar da cabeça essa imagem que você tem de mim, de folhetim do século dezoito.

Ele – O amor, ao contrário do que você pensa, não corrompe a visão que um tem do outro. Ele aprimora. (Se levanta) E o que te faz tão especial assim, a ponto de decidir o que é melhor pros outros?

Ela – Eu não sei o que é melhor para os outros. Eu sei o que é melhor pra você!

Ele – (Agressivo) Não sabe não. O melhor pra mim é estar perto de você. É compartilhar da sua vida, dos momentos mais angustiantes aos mais alegres. Eu preciso de você pra ser feliz!

Ela – (Irônica) Então eu sou realmente alguém que te faz muito feliz?

Ele – E que me faz sofrer um bom bocado também.

Ela – (Eufórica) Mas o amor não é isso? É um prazer misturado a um sofrer consciente que faz com que o indivíduo perca a razão, o sentido da vida. É por isso que dizem que o amor cega.

Ele – (Impressionado) Não lhe dói saber que quando você sair por aquela porta eu posso compartilhar das mesmas alegrias que um dia foram suas com outra pessoa?

Ela – Eu não penso nisso. Eu penso que quando eu sair por aquela porta, eu vou estar abrindo centenas de outras portas pra você. Eu tô encarando essa despedida como se fosse uma despedida de um viajante em uma cidade desconhecida sabe? Sempre prometendo voltar. Afinal, nada é definitivo nessa vida.

Ele – Eu não acredito que você tá comparando a nossa historia com um roteiro turístico. (T) Sabe quando foi que eu te perdi? No momento em que me entreguei a você como eu realmente sou. Limpo, de corpo, alma e defeitos. Foi aí que eu errei. Quebrei o encanto.

Ela – (Séria, apagando o cigarro) É esse o seu problema. Você não consegue perceber que a gente já chegou onde tinha que chegar. Já deu. É como chegar a um beco sem saída, ou melhor, onde existe uma saída, mas que só um de nós pode passar entendeu?

Ele – Entendi. Só não acho justo. Eu não acho justo você desconstruir tudo o que a gente viveu por nada. Agora eu vou ter que me contentar em ser apenas mais uma lembrança que você vai ter quando for mais velha. Eu imagino você bem velhinha abrindo um livro e encontrando uma foto nossa já amarelada pelo tempo, aí nesse momento vai passar pela sua cabeça um flash, com tudo o que a gente viveu. E quando você olhar ao seu redor e perceber que nada do que você tem é o que você sonhou pra sua vida, aí você vai lembrar de tudo o que desperdiçou. Vai querer voltar pra mim, e vai me encontrar solitário, esperando você numa casa na companhia de um bando de gatos remelentos. Que é que você acha disso?

Ela – (Rindo) Acho que você deve parar de assistir Almodóvar.

Ele – (Irritado) Por quê você não me leva a sério?

Ela – Nem você se leva a sério. Lembro como se fosse ontem, você tendo crises de riso no velório do seu avô.

Ele – (Saudoso) Ele mereceu. Nunca gostou de mim, dizia que eu era um moleque preguiçoso. No fundo era uma implicância por causa do meu pai. O velho odiava o meu pai. Nunca perdoou a minha mãe por ter casado com meu velho.

(Levanta e começa a pôr a mesa. Pega dois pratos e põe na mesa)

Ela – (Acende outro cigarro) Deve ser ruim ter uma família dividida pelo rancor assim.

Ele – Vem cá, quando você decidiu ir embora você já sabia o que ia me dizer?

Ela – Ah, eu ensaiei alguma coisa. Mas essas coisas nunca dão certo quando se tem um texto decorado. Soa falso. O melhor mesmo é você sempre ser autêntico. Garanto que dói menos.

(Ela levanta e recolhe o prato que ele colocou para ela e guarda).

Ele – Dói menos em quem diz ou em quem escuta?

(Ele volta e pega o prato novamente).

Ela – Nos dois ué. Tem coisa mais dolorosa do que você perceber que a outra pessoa está enrolada, sem saber como te dispensar?

(Ela toma o prato das mãos dele).

Ele – As vezes é por que a pessoa está insegura do que quer.

(Ele pega o prato de volta. Ela se senta conformada).

Ela –Isso pode até ser.

Ele – Levando isso em consideração, eu posso afirmar que pra você não foi nada difícil me dá um pé na bunda. Por quê você não foi embora quando eu achei que tinha você no coração? Agora que você habita minha alma vai doer mais.

Ela – Do jeito que você fala parece até que eu sou uma megera. Você tem que entender que eu só to fazendo isso por que...

Ele – (Interrompe brusco, levanta) Vai ver a culpa é minha mesmo. Sempre te supervalorizei. Acabei transformando você numa espécie de guia da minha vida. Você tinha o poder de me direcionar para tudo o que quisesse. Eu te dei o controle!

Ela – (Em tom de desafio) E quem te disse que eu queria o controle hã? Sabe que eu odeio essa forma desmedida de amor que você impõe pra mim? Eu mereço que você me odeie. Seja mais humano pombas! Será que você nunca percebeu que o que eu quero é aventura, é me jogar num abismo sem saber aonde eu vou cair? Eu não quero poder controlar a sua vida nem a de ninguém. Eu to tendo a coragem de jogar a minha aos quatro ventos. O que eu quero é ser livre. E o seu amor só me prende, ele não me libera pra amar mais nada. Nem a mim mesma.

Ele – (Saudoso) Semana que vem faz dois anos que estamos juntos. Dois anos. Vinte e quatro meses.  E agora, não mais que de repente você se vai. Não prometendo sequer, uma visita na ceia de Natal.

Ela – Eu não disse que não faria uma visita. (Misteriosa) Pode ser que eu apareça de repente.

Ele – (Ansioso) Sério? Quando?

Ela – Coisa rápida. Gente superior nunca faz visita demorada.

Ele – Você acredita mesmo nisso?

Ela – Não. (Divertida) Li na Caras. Achei bonito.

Ele - Você vai levar alguma coisa daqui? Alguma lembrança?

Ela – Todas as lembranças que eu queria eu já tenho. Todas aqui. (Aponta para o coração)

Ele – Eu falo de coisas físicas, materiais. Não vai levar nada?

Ela – Acho que não. Não quero peso na bagagem.

Ele – Leva uma foto pelo menos. Não pesa nada.

Ela – Acho melhor não. O que os olhos não vêem...

Ele – Você sabe pra onde vai?

Ela – Nada certo. Vou sair por aí sem rumo. A graça da minha viagem é justamente as incertezas do dia de amanhã.

Ele – Você bem que poderia ser menos exótica e mais clichê na hora de se despedir de mim.

Ela – Como assim clichê?

Ele – Sei lá, fingir que está muito abatida pelo fim do nosso relacionamento. Chorar, me chamar de cafajeste, atirar coisas pela janela.

Ela – Você realmente faz questão desse tipo de cena?

Ele – Eu não, mas os vizinhos esperam que isso aconteça. Eles nos olham como se esperassem que fôssemos nos atracar a qualquer momento.

Ela – E desde quando você se interessa pela opinião dos seus vizinhos?

Ele – Não me interesso. Mas pelo menos nesse quesito a gente podia ser um pouco mais normal. Briga de casal é igual a último capítulo de novela: ninguém gosta, mas todo mundo vê. E se isso aqui fosse uma novela, eu provavelmente seria aquele personagem que é passado pra trás o tempo todo e que é motivo de chacota pra Deus e o mundo.

Ela – O mocinho?

Ele – Não, o CORNO!

Ela – Que idéia!

Ele – (Desconfiado) Pintou alguém não foi?

Ela – O quê?

Ele – Apareceu um outro cara na sua vida, é isso? E aí você quer ser feliz com ele e tá sem jeito pra me contar não é?

Ela – Por quê que pra vocês homens é sempre mais fácil creditar a culpa a outra pessoa, sendo que na maioria das vezes os culpados são vocês mesmos?

Ele – E se vierem atrás de você. O que eu digo?

Ela - Diz que eu morri. O que não é nenhuma mentira. Vou morrer nessa longa viagem. Talvez eu volte um dia. Mas como uma pessoa diferente. Sem vestígios dessa que você está vendo agora.

Ele – Ainda dá tempo de desistir dessa loucura.

Ela - Você tá enganado. Não há mais tempo. Eu já perdi tempo demais. E você também. Vai viver tua vida do jeito que você achar que deve e não do jeito que escolherem pra você.

Ele – (Irônico) Pode deixar. Não vou deixar mais ninguém comandar a minha vida.

Ela – (Levanta) Bom, deixa eu ir. Ta na minha hora.

Ele – (Levantando) Quer que eu chame um táxi?

Ela – Não, não precisa. Eu chamo lá embaixo.

Ele – Não quer pelo menos jantar? Você já sai abastecida. Fiz aquela carne de panela que você adora.

Ela – (Tentada) Aí já é golpe baixo! Esse é o meu...

Ele - ...prato favorito. Principalmente se vier acompanhado de suco de uva de caixinha. Fiz tudo pra você.

Ela – Eu não sei como eu vou viver agora sem esses mimos que você faz pra mim. E agora? O que eu faço?

Ele – Fica.

Ela – Olha, a gente já conversou sobre isso...

Ele – Ta se formando uma tempestade lá fora. Fica. Pelo menos por esta noite.

Ela – (Indecisa) Tá bom. Mas só por hoje. Amanhã bem cedinho eu vou embora.

Ele – Não precisa ter pressa. Eu não vou te amarrar aqui.

Ela – Como é que tá?

Ele – (Acendendo a vela no centro da mesa) Ah, parece que vai ser uma chuva daquelas. O céu está todo escuro.

Ela – (Olhando-o nos olhos) A natureza não me interessa. O que me interessa é o homem.

Ele – (T) As pessoas vão se apaixonar novamente, o romance nunca há de morrer.

Ela – Tom Jobim. O meu...

Ele – ...favorito. É, eu sei.

(Ele vai em direção ao som e liga. Sobe a música. CONSTRUÇÃO, de CHICO BUARQUE. Começam a comer. )

                                                                                                                  
                                                                                                                FIM



  

quarta-feira

PARA O PAI QUE NUNCA TIVE, MAS QUE SEMPRE DESEJEI TER E QUEM SABE UM DIA EU SEREI.


Desde criança essa época do DIA DOS PAIS era melancólica pra mim. Fui criado pela minha mãe, sem a presença do meu pai. Na verdade só vim conhecê-lo quando eu tinha oito anos. Na minha escola, as outras crianças sempre perguntavam pelo meu pai, e eu dizia que não o conhecia, portanto, não tinha um pai. Depois que o conheci, continuei órfão. Isso por que não consegui criar um vínculo com aquele homem que abandonou a minha mãe ao saber da gravidez dela. Você saber que seu pai não queria que você nascesse é barra.

Aparentemente o perdoei por esses anos de ausência. Mas no fundo, como um bom escorpiano que eu sou, guardo uma mágoa por ter sido, de certa forma, renegado. Hoje ele é casado e tenho dois irmãos, fruto do segundo casamento dele. Então, essa época do Dia dos Pais, fico imaginando como seria o Thiago pai. Já decidi que não terei descendentes. Filhos, de jeito nenhum. Não tenho jeito para ser pai. Mas mesmo tendo toda essa certeza (e creia, eu tenho certeza!), eu as vezes fico me imaginando sendo pai. Levando meu filho na escola, ao médico, ao parque, à praia... Fico me perguntando se eu seria capaz de amar aquele filho do jeito que ele merecia. Um dos meus grandes medos é não amá-lo suficiente. Observei pais e filhos esses últimos dias. Será que eu seria um bom pai. E se eu me tornasse pai, como seria esse meu filho. Fiquei a imaginar os olhos, a boca, o rosto, o cabelo, as mãozinhas pequenininhas...

De repente eu já me vi no hospital, diante daquela parede de vidro, vendo meu filho ali, dormindo tranqüilo, horas depois de nascer. Penso nesse instante que estou ali para apresentá-lo ao mundo.

- Veja meu filho, veja meu campeão, esse é o mundo que te espera cá fora. É um mundo esperando pra ser conquistado. E você vai conquistá-lo.

Um novo salto no tempo e estou em frente à escola, a convencê-lo a entrar. Ele me diz que tem medo. Olho nos olhos dele e lhe digo que tenha coragem e enfrente esse lugar novo que vai lhe trazer coisas maravilhosas. Abro as portas de um mundo novo pra ele. Vejo um adolescendo inquieto, rebelde, com uma série de questionamentos pulsando dentro dele. Seus olhos brilham quando te entrego a tão sonhada guitarra, que será responsável por muitas das minhas futuras noites de insônia...

O telefone toca. Ouço do outro lado, sua voz ofegante: - Pai! Passei no vestibular, pai!
  

O tempo passa. Caminho apressado pelo corredor do hospital. Com minha memória já não tão boa, acabo me confundindo com esses corredores sempre iguais. Nisso, uma mão pousa no meu ombro. Quando me viro, me deparo com o rosto ansioso do meu filho, que se abre num sorriso e diz: - É menino, pai!

Meus devaneios acabam agora. Penso que talvez eu seja um bom pai. Um da, talvez, quem sabe... Mas só quando eu conseguir me livrar de muitas mágoas que eu ainda carrego, é que poderei amar um filho como eu acho que ele deve ser amado.

segunda-feira

A CRÔNICA DO AMOR INEXPLICÁVEL


PRÓLOGO INÚTIL DE UM PSEUDO-ESCRITOR
“Essa é uma pequena história de amor. Impossível falar de mulher sem se utilizar dessa pequena palavra que move o mundo muito antes da invenção da moeda. O amor incondicional, esses são sentidos apenas e totalmente pelas mulheres. Somente a mulher, no auge da sua grandeza é capaz de abdicar de si mesma por aqueles que ama. Que homem seria capaz de abandonar uma mulher mesmo estando apaixonado por outra? Nenhum homem jamais alcançará a grandeza feminina descrita tão bem por grandes pensadores. Não tão bem descritas talvez por serem estes grandes pensadores homens. A todos esses peço licença, para contar essa história, de uma mulher que amou mais do que devia. Mas que ninguém se espante, por que isto é o que elas fazem de melhor: amar incondicionalmente”.

(Sugere-se que o ambiente demonstre ser habitado por uma alma complexa. Uma leve bagunça, coisas espalhadas pelo chão. No centro uma penteadeira, onde um grande espelho se encontra disponível para compartilhar da grande angústia, ou não, da nossa protagonista. Alaíde usa o espelho como confidente, e encontra nele o seu único companheiro fiel. O que muitos classificariam como loucura, se traduz aqui como uma imensa solidão, revelada em cada detalhe do ambiente levemente melancólico. Alaíde é uma mulher bonita, mas que se esconde por detrás de uma maquiagem borrada, que demonstra ao público a frustração dela com a vida. Veste-se com uma camisola meio velha, cabelos desgrenhados, boca suja de batom, como se fosse uma sobrevivente de uma traumática noite de amor).

ALAÍDE – (Sentada em frente ao espelho) Toda eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair pela boca. Acordo todas as manhãs com a sensação de que perco algo a todo instante, como se os momentos mais importantes da minha existência ficassem submersos enquanto eu emergia incompleta. (Levanta em desafio) Nasci superior, mulher, aberta e adepta aos amores que a mim foram oferecidos em diversas ocasiões, amor de pai, de mãe, de irmãos. (Saudosa) Desde cedo acreditei que minha missão nesse mundo era propiciar a felicidade àqueles que de mim se aproximassem. (Amarga e conformada) Mas com o passar dos anos percebi que eu nada mais era do que um instrumento de prazer para milhares de homens que de mim se serviam na maior crueza possível. Eram homens das mais diversas origens. Vinham até mim afoitos pela carne, ofuscados pelo desejo e vazios de emoções. Emoções que me ofereciam sem que as possuíssem. (Sensual) A todos me entreguei sem pudores. Intimamente imaginava que um ali, dentre aqueles que me possuíam, eu encontraria a parte de mim que faltava. (Resignada) Obviamente não encontrei. Acabei me ferindo cada vez mais, e mesmo com as feridas ainda abertas, prosseguia na busca desenfreada. E o pior, o pior disso tudo é que eu nem ao menos sabia o que estava buscando. (Acende um cigarro) Que irônico: presa num ciclo em que não havia possibilidade de saída. Um ciclo que eu mesma criei. Um dia, depois de muito me entregar, me apaixonei. Não foi um amor qualquer. Foi uma paixão avassaladora, dessas que só as mulheres sentem. A esse amor eu me entreguei sem pensar. A santa e a pecadora reunidas numa só cama entregues a um só corpo, unidas na dor e no desejo. Descobri naquele tempo o que era ser amada de verdade, descobri o que era a FELICIDADE! Aquele homem soube me tocar de uma forma tão intensa que eu já não me reconhecia em seus braços. Me arrepiava ao menor contato do seu toque, uma sensação de fraqueza dominava o meu corpo, e juntos atingíamos o clímax, um êxtase em que já não havia o homem e a mulher, não existíamos mais como dois e sim como se fôssemos um único corpo, como se um não pudesse existir sem o outro. Mais aí acabou. Num belo dia ele me dispensou. Fez como todos os homens fazem. Nem melhor, nem pior, muito menos diferente. Fez exatamente igual aos outros que antes dele já haviam por mim passado. Guardo na memória as últimas palavras que ele me disse: “tenho um mundo pulsando dentro de mim, e mesmo assim, mesmo conhecendo os teus anseios e tuas dúvidas, mesmo sabendo que arriscaria boa parte dos teus sonhos por mim, mesmo assim não sei se serei capaz de retribuir da maneira que você deseja. Adeus”.  Nunca mais o vi depois disso. Soube um tempo depois que havia se casado com uma outra mulher, uma dita “mulher de família”, dessas que não dão no primeiro encontro. Mas que culpa tenho eu de seguir os meus instintos? Sou menos mulher do que as tais “mulheres de família”? Eu desafio a qualquer uma que aqui se encontra a provar que no meu lugar não faria a mesma coisa. Parei de me martirizar ao descobri que todas nós mulheres buscamos a mesma coisa: amor. Irene, Arlete, Suzana, Cláudia, Alice, Maria, Laura, Joana. Não importa o nome todas caímos nessa rede de mentiras que eles tecem ao nosso redor. No fundo eu sei que sou culpada. (Safada) Me deixei envolver por uma barba por fazer e um par de braços fortes com mão enormes. Esse é o nosso grande problema. A gente sempre se impressiona com coisas pequenas. (Mais safada, fazendo alusão ao pênis) Muitas vezes realmente pequenas. Tão pequenas que nem valem a pena. No dia a dia pequenas desavenças se tornam grandes problemas.  E é graças a esses problemas que eu me encontro nesse estado. Sozinha. Viva por fora e morta por dentro. Sem a certeza do que será de mim amanhã. Apenas sei que posso perder tudo, dos sonhos aos bens materiais. A única coisa de que não abro mão, é do dom de amar novamente. Amar como somente as mulheres são capazes. (Black).

                                                                                                                                 FIM

quinta-feira

AVAREZA


Não meus caros senhores que aqui se encontram. Não me sinto à vontade para dividir o que quer que eu tenha com quem quer que seja. Divisão é uma palavra que não se encontra no meu humilde vocabulário. Tenho plena consciência daquilo que me pertence e nada nem ninguém será capaz de tirar de mim, aquilo que me foi dado de bom grado ou que por muito esforço, outrora foi conquistado. Tudo o que é meu é meu, e não dou nada a ninguém. Poupo do ar ao dinheiro, de mim não tiram nenhum vintém. Não abro a mão para nada, nem mesmo para dar tchau, sei dar valor ao que eu tenho, economizo até o sal. Não pratico a caridade, deixo isso para quem gosta de esbanjar, não tenho obrigação com mendigos, menores abandonados, ou que quer que seja. Sofro com descaso daqueles esbanjadores que desdenham da minha precaução em poupar aquilo que conquisto. Ai daqueles que por despeito me acusam de avarento, mesquinho ou até mesmo pão duro. A todos eu ignoro, não me dando o direito de gastar nem mesmo palavras para rebater tão injustas críticas. A esses que têm por hábito gastar seu tempo caluniando pessoas de bem, deixo apenas uma dose mínima do meu desprezo. Não gasto meu tempo com pequenas ninharias como religião, amizade ou até mesmo amor. Sou a favor da praticidade aliada ao bom senso. Pensem comigo: um homem sem dinheiro, mas com amizade pode chegar a algum lugar, porém terá que dividir boa parte do que conquistou com aqueles que o ajudaram a chegar ao topo. Por sua vez um homem que se esforça para chegar ao topo, e no caminho não se deixa envolver com quem quer que seja, pode até demorar para chegar lá, mas quando chegar, não haverá ninguém que venha lhe cobrar direitos. Fazer o bem sem olhar a quem poderia até dar certo caso o “quem” em questão tivesse a dignidade de retribuir com juros e correção monetária todo o investimento social e financeiro nele aplicado. Amigos, amores e Deus, são coisas que podem ficar em segundo plano. Só me apego aquilo que posso ver, tocar e de preferência, possuir. Sou fiel aquilo que tenho, ao que conquistei e ao que desejo conquistar.
  


INVEJA



Abro meus olhos e me fixo no objeto de desejo. 

Ter e não ser: eis a questão! Tenho tudo o que quero, consigo tudo que almejo, mesmo assim, sou um constante escravo de uma coisa pequenina chamada DESEJO. Tenho posses, dinheiro, carros e luxo. Porém em meu pensamento, tudo o que tenho se torna relativamente pequeno se comparado com aquilo que meu semelhante vem a ter. Esse desejo que me angustia, essa vontade que me domina, é quase um inferno em vida, Eu me esforço para ser notado aonde eu chego. Eu sou bom naquilo que faço, mas não tão bom a ponto de despertar a atenção daqueles que estão num patamar acima do meu. Estou há dez anos no mesmo emprego, no mesmo cargo e nunca, jamais, em hipótese alguma consegui me sobressair em alguma coisa. Aí eu me pergunto: por que não eu? Minha falta de sorte é tão notável que nem mesmo a deliciosa alcunha de “funcionário do mês” eu consegui abocanhar. Até aí tudo bem, se você não levar em consideração o fato de que no meu setor só tem doze funcionários. Nesse exato momento eu me resignei a encarar os fatos como eles realmente são: eu sou uma vítima constante de um destino mal traçado. Preciso aprender a conviver com esse desejo que as pessoas têm em fazer da minha vida um inferno na terra.  Me incomoda ver a ascensão daqueles a quem julgo serem menores do que eu. Só de imaginar que alguém se apossou de alguma coisa que estava destinada a ser minha, meus instintos fervem. Desejo tudo o que eu mereço e ninguém mais tem o direito de ter aquilo que por ventura é meu. A insônia me acompanha nas noites em que me vejo a desejar aquilo que é do outro. Desejo com uma fúria alucinante, como se mil serpentes me açoitassem e com um furor desmedido, como se meu corpo ardesse feito um vulcão em fúria. Um desejo bestial, uma sede em adquirir o que é do outro, sabendo intimamente que o bem desejado, seria muito melhor aproveitado por mim. Sofro com essa loucura mórbida que se estende por cada parte do meu ser. O desejo que cresce e que me acompanha aonde quer que eu vá, esteja onde estiver. Fixo meus olhos em algo, ou alguém, e imediatamente sei que aquilo não deve existir caso não me pertença ou esteja subjugada a mim

VAIDADE



Oi! Talvez você não me conheça. Mas é bem possível que já tenha escutado sobre mim.

Aliás, acho bem difícil que você não tenha ainda se descoberto encantada com meus atributos. Afinal, um exemplar da espécie humana como eu não é encontrado em qualquer lugar. Eu sempre tive consciência do meu papel na sociedade. Vim ao mundo para trazer mais beleza para ele. Trago comigo o desejo de ser cada vez melhor em tudo o que me proponho fazer. Nem preciso me esforçar para ter dos outros aquilo que quero. Um olhar, um gesto e todos caem aos meus pés. Mulheres, homens, velhos e crianças. Todos se rendem ao meu charme inigualável. Sei que tenho poder. O poder de ser quem eu quiser e de ter quem também me queira, ou seja: noventa por cento da população dessa cidade. Gritos histéricos, chantagens emocionais, a tudo sou submetido, como uma espécie de castigo por ser quem eu sou. Eu sou o pecado mais formal, eu sou o alvo do desejo de todos os mortais. Tenho tudo o que lhe falta. Sou o seu complemento em todos os sentidos. Sou senhor soberano e absoluto das tuas verdades, trago desenhado em meu peito a rota dos teus desejos. Aos que me desdenham, resta-me apenas um sorriso de canto de boca. Meus perfeitos lábios desenham em minha bela face a expressão de satisfação por ver em seu rosto, a vontade de me possuir, de me levar para casa. De fazer do meu corpo e da minha alma insensível   Um refúgio para tuas dúvidas e anseios. Não vivo neste mundo para ser servido e sim, para servir. Sirvo de alento para as inquietações da alma dos pobres seres que se debatem pela minha presença, que lutam entre si para conseguir um décimo da minha atenção. Sei que estou acima de todos eles. Por isso mesmo, tenho o dever de deixá-los usufruir de mim da maneira que eles, pobres mortais, acharem correta. Nunca estarei satisfeito, jamais me darei por vencido. Se sou o melhor, mereço receber o melhor daqueles que me cercam. Não tenho culpa de ser assim, se sou do jeito que sou, é por que necessito servir para alguma coisa. E sirvo para tudo: dos desiludidos aos desesperados, dos carentes afetivos ou até os abandonados.  Sirvo para quem não tem esperança, despertando nesses pobres coitados a esperança de me possuir. Sou uma alma indomável, amado, invejado, odiado ou admirado, porém jamais ignorado. Não me importo de ser assim, assim serei até morrer, apenas peço aos que me julgam sem me conhecer, que me conheçam por extenso, antes de dar o seu parecer, pois afinal sou o melhor em tudo, eu sou o tal, muito prazer!

LUXÚRIA


Uma vítima! É isso que sou, uma eterna vítima dos meus desejos, instintos que muitas vezes me levam a cometer verdadeiras insanidades.  Sou senhor daquilo que acredito, e eu acredito fielmente que todos nós devemos amar sem limites. Não aquele amor que escraviza, domina e que faz de todos os seres humanos capachos patéticos da vontade do outro.  Por isso sou extremamente voraz em todos os meus caprichos. Sabe, já fui muito puritana, a ponto de acreditar que um dia receberia minha recompensa assim que chegasse no céu. Pouco tempo depois, descobri que há meios muito melhores para se chegar até lá. Sou capaz de tudo para manter meu desejo aceso e saciado, não me preocupando se o que vem seja quantidade ou qualidade. Nessa vida há de se experimentar de tudo e com todos. Somos preparados desde o início para conviver com o prazer e a volúpia, mesmo que indiretamente.  Prazer que está enraizado nas vontades mais obscuras do ser humano:

Incesto, masoquismo, fetichismo, masturbação: AMOR LIVRE!

Uso meu corpo como uma extensão para tudo o que eu desejo. Me dobro, me jogo, me atiro sem esperar uma rede de proteção. Sou uma eterna adoradora da lascívia e da sensualidade. Corpos nus se estendem sobre a cama, num eterno vai e vem, em que se atritam e se rendem a um gozo de múltiplas sensações. Sei que sou julgado, condenado e constantemente apedrejado por aqueles que, por inveja ou por medo, quem sabe, não se rendem aos seus desejos.  Eu sou a vergonha dos olhos das donas de casa, eu sou o olhar da beata fanática, eu sou o seu desejo escondido e renegado. Eu sou a luxúria, nascida dentre a paixão, que se transforma em ira quando insatisfeita. Eu sou insaciável, passiva como um anjo, ou indomável como um demônio. Eu sou a porta de acesso ao um mundo obscuro. Te conduzo por caminhos tortuosos, mas inegavelmente excitantes, faço você se render aquilo que você mais teme. Ah, como me acalenta a alma feito um bálsamo esse teu jeito assustado perante meus devaneios. Meu corpo anseia pelo complemento do seu. O ofegar da sua respiração faz com que eu perca a noção de tempo e espaço. Sou seu refém! Prenda-me com seus olhos, morde-me com tua boca ávida pela minha pele. Sente o gosto do meu beijo, o calor dos meus delírios, o desejo estampado nos meus olhos. Coma-me com teus olhos sedentos.

Rasga minhas vestes como fossem feitas de papel!

Papel que eu utilizo para descrever em detalhes toda minha volúpia por este momento tão esperado. Cavalgo pelo teu corpo como uma amazona na fúria da batalha. Sinto teu gosto de fera na minha boca que se abre para receber mais uma parte de ti. Adentra-me com tamanha sede que sou capaz de visualizar um oásis em meio ao deserto dos meus desejos.  Conduzo-te a um vale de sensações, em que o medo e a dúvida já se dissolveram. Aos poucos vou perdendo a noção da realidade, nossos corpos já não podem ser distinguidos separadamente, co-habitamos um ao outro numa simbiose perfeita. Nosso ritmo se perde da mesma forma como perdemos a consciência. O toque dos meus dedos em seu corpo estendido te traz de volta a realidade. E com ela, a sensação de dever cumprido. 


Deixais se dominar pelas paixões ó homens de pouca fé!

terça-feira

O MEDO


Hoje me perguntaram do que eu tinha medo. Fiquei paralisado. Do quê que eu tinha medo. Ou melhor, do quê eu tenho medo? Não faço a menor idéia. Aliás, tenho sim espera um instante, me deixa pensar...

Eu tenho medo da morte. Assim, tenho medo de perder as pessoas que eu amo. Tenho medo que a morte as leve. Tenho medo de repente não poder fazer uma coisa simples como pegar um telefone pra dizer: - Oi mãe!

Tenho medo de não dar certo na profissão que eu escolhi. Sei lá, ficar taxado de fracassado, das pessoas que apostaram em mim, olharem desapontados com o resultado que eu obtive!

O medo paralisa tanto. Ele bloqueia muitas das nossas ações. Sentir medo apesar de ser profundamente aceitável e humano (afinal de contas ainda somos humanos né?) é motivo de vergonha pra algumas pessoas. E isso inclui a mim, que tenho medo de coisas absurdas como, por exemplo, (vou acabar com a minha reputação!) filmes do Chuck, o brinquedo assassino. Tenho pavor daquele bonequinho. Tenho medo praia deserta, assim como morro de medo de tomar banho de mar à noite. Tenho medo de viajar de noite, tenho medo de água em excesso (o que não impede de você colocar um cruzeiro máster chique no meu destino, viu Deus?), tenho medo de filmes de terror e até de suspense. Tenho medo de lagartos. Tenho medo da Joelma da banda Calypso. Tá gente esse último é sacanagem, adoro a Joelma (acelerou, acelerou, acelerou meu coração...).

Já perdi as contas das vezes que eu deixei de fazer alguma coisa por conta de um medo. Sabe que agora eu ando pensando que as vezes esse medo serve como uma espécie de alerta. Às vezes o medo é o nosso anjo da guarda dizendo: - Olha só o que pode te acontecer se você continuar insistindo nessa bobagem!

Por isso agora já me decidi: vou continuar tendo medo. Sentir medo, e melhor, assumir que sente medo não faz de você mais fraco que ninguém. Muito pelo contrário. Você demonstra o quão forte é, quando admite as próprias fraquezas.

(Lindo isso não foi? Arrasei!).

Cada vez que consigo vencer um desses monstros do medo que vivem dentro de mim, é como se eu provasse pra mim mesmo, que por mais que o mundo me diga o contrario, eu sou capaz sim de ir cada vez mais além. Além dos meus medos, além dos meus desejos, além das barreiras que o mundo insiste em colocar no meu caminho. E se eu posso ir além, acredite, VOCÊ TAMBÉM PODE! Vença seus medos e seja feliz!

Amigos: por onde andam eles?


Existe um ditado que diz morremos como viemos ao mundo: sozinhos (com exceção dos gêmeos, claro). Fico me perguntando se realmente é assim. Será? Ao longo de nossas vidas, sejam elas curtas ou não, nós conhecemos tanta gente, como podemos morrer sem a presença de nenhum deles? Enfim, levando nosso papo adiante, meu post de hoje é sobre amizade. Essa coisinha que às vezes nós esquecemos e passamos por cima. Amigos são criaturas engraçadas. Mesmo quando são sérios. Eles estão sempre ali quando precisamos, ou pelo menos esperamos que eles estejam.

Não é fácil ser amigo de alguém. Digo isso por quê o ser humano é muito complexo. Complexo até demais. Muitas vezes quando você pensa estar agradando está provocando exatamente o oposto. E a gente fica sem jeito de dizer a verdade ao amigo e acaba deixando que ele continue sem noção.  O ser humano é falso por natureza. Mesmo quando não quer, ele acaba se distraindo e quando vê, ops, já pensou o que não devia. Imagina se Deus desse o poder de ler mentes para nós? Nossa senhora, que puta confusão não ia ser. Muita gente seria linchada, e eu confesso que seria uma das vítimas.

Amizade quer dizer dedicação. Não quer dizer que você tenha que viver apoiando a pessoa o tempo todo, mesmo ela estando errada, Quer dizer que você tem que apoiá-la deixando clara sua posição perante os fatos. Um bom amigo não oculta os mal feitos do outro. Muito pelo contrário, o objetivo de um amigo em sua vida é simplificá-la.

Amizade tem a ver com saber lidar com as distâncias. Hoje me pego a pensar em muitas pessoas que em determinados momentos da minha vida foram imprescindíveis e que hoje só me lembro delas vez ou outra. Aí eu me pergunto: era amizade mesmo? Desenvolvi uma tese para essa questão. Ei-la: algumas pessoas se fazem de tal maneira presentes em nossa vida, que acabam por marcá-la de uma forma definitiva, tendo assim um lugar especial na sua história. Essa marca permanece mesmo que essas pessoas não façam mais parte do seu dia a dia.

Amizade não pode sufocar. Ta bom que é muito gostoso ter um amigo que te faz se sentir bem, que te diverte, que te salva do sufoco. Mas é preciso delimitar limites nessa relação de amizade. Parece radical? Não é. Digo isso por que é extremamente sufocante ter uma pessoa que por ser seu amigo se acha no direito de controlar sua vida. Amigo não significa dono. Você deve deixar seu amigo ser feliz, e viver. Conhecer outras pessoas ou mesmo se tornar amigo de outras pessoas não vai fazer dele menos seu amigo. Mas um ciuminho básico pode por ninguém é de ferro.

Parentes são pessoas que Deus joga no seu destino sem que você possa reclamar (ou até pode, mas não sei se vai adiantar muito, afinal de contas você já nasceu mesmo!), mas amigos são pessoas que surgem em seu destino para que você possa acrescentar algo de bom em si mesmo. Nós aprendemos com nossos erros e os verdadeiros amigos nos ajudam nesse aprendizado. Erram conosco, vibram com nossas vitórias, choram nossas derrotas, e acima de tudo, caminham conosco lado a lado, nos empurrando pra frente.


Um abraço a todos os meus amigos. Aos que passaram pela minha vida e aos que continuam. Aos que se foram, aos que estão e aos que virão, a todos um caloroso abraço!



segunda-feira

EU NÃO SOU ADULTO! OU MELHOR: NÃO QUERO SER!

EMBORA SOUBESSEMOS QUE UM DIA TODO AQUELE DESEJO DE SER GRANDE PASSARIA NÃO ABRÍAMOS MÃO DE PENSAR COMO SERÍAMOS NO FUTURO, AGORA NÃO TÃO DISTANTE ASSIM.

ÉRAMOS UM GRUPO QUE SONHAVA, SONHÁVAMOS QUE PODIAMOS TUDO
TUDO O QUE TINHAMOS ERA NADA, NADA MAIS DO QUE O NECESSÁRIO. NECESSARIAMENTE EU BUSCAVA UM ALGO A MAIS NAQUELES OLHOS BRILHANTES
ME ENCANTAVA O FATO DE QUE AQUELE BRILHO QUE POR VEZES ME OFUSCAVA APAGAR SE IA EM MEIO AO PASSAR DOS ANOS .

TERÍAMOS ENTÃO REALIZADO NOSSO DESEJO

SERÍAMOS GRANDES, ADULTOS

PORTANTO, CINZAS!!