quinta-feira

VAIDADE



Oi! Talvez você não me conheça. Mas é bem possível que já tenha escutado sobre mim.

Aliás, acho bem difícil que você não tenha ainda se descoberto encantada com meus atributos. Afinal, um exemplar da espécie humana como eu não é encontrado em qualquer lugar. Eu sempre tive consciência do meu papel na sociedade. Vim ao mundo para trazer mais beleza para ele. Trago comigo o desejo de ser cada vez melhor em tudo o que me proponho fazer. Nem preciso me esforçar para ter dos outros aquilo que quero. Um olhar, um gesto e todos caem aos meus pés. Mulheres, homens, velhos e crianças. Todos se rendem ao meu charme inigualável. Sei que tenho poder. O poder de ser quem eu quiser e de ter quem também me queira, ou seja: noventa por cento da população dessa cidade. Gritos histéricos, chantagens emocionais, a tudo sou submetido, como uma espécie de castigo por ser quem eu sou. Eu sou o pecado mais formal, eu sou o alvo do desejo de todos os mortais. Tenho tudo o que lhe falta. Sou o seu complemento em todos os sentidos. Sou senhor soberano e absoluto das tuas verdades, trago desenhado em meu peito a rota dos teus desejos. Aos que me desdenham, resta-me apenas um sorriso de canto de boca. Meus perfeitos lábios desenham em minha bela face a expressão de satisfação por ver em seu rosto, a vontade de me possuir, de me levar para casa. De fazer do meu corpo e da minha alma insensível   Um refúgio para tuas dúvidas e anseios. Não vivo neste mundo para ser servido e sim, para servir. Sirvo de alento para as inquietações da alma dos pobres seres que se debatem pela minha presença, que lutam entre si para conseguir um décimo da minha atenção. Sei que estou acima de todos eles. Por isso mesmo, tenho o dever de deixá-los usufruir de mim da maneira que eles, pobres mortais, acharem correta. Nunca estarei satisfeito, jamais me darei por vencido. Se sou o melhor, mereço receber o melhor daqueles que me cercam. Não tenho culpa de ser assim, se sou do jeito que sou, é por que necessito servir para alguma coisa. E sirvo para tudo: dos desiludidos aos desesperados, dos carentes afetivos ou até os abandonados.  Sirvo para quem não tem esperança, despertando nesses pobres coitados a esperança de me possuir. Sou uma alma indomável, amado, invejado, odiado ou admirado, porém jamais ignorado. Não me importo de ser assim, assim serei até morrer, apenas peço aos que me julgam sem me conhecer, que me conheçam por extenso, antes de dar o seu parecer, pois afinal sou o melhor em tudo, eu sou o tal, muito prazer!

LUXÚRIA


Uma vítima! É isso que sou, uma eterna vítima dos meus desejos, instintos que muitas vezes me levam a cometer verdadeiras insanidades.  Sou senhor daquilo que acredito, e eu acredito fielmente que todos nós devemos amar sem limites. Não aquele amor que escraviza, domina e que faz de todos os seres humanos capachos patéticos da vontade do outro.  Por isso sou extremamente voraz em todos os meus caprichos. Sabe, já fui muito puritana, a ponto de acreditar que um dia receberia minha recompensa assim que chegasse no céu. Pouco tempo depois, descobri que há meios muito melhores para se chegar até lá. Sou capaz de tudo para manter meu desejo aceso e saciado, não me preocupando se o que vem seja quantidade ou qualidade. Nessa vida há de se experimentar de tudo e com todos. Somos preparados desde o início para conviver com o prazer e a volúpia, mesmo que indiretamente.  Prazer que está enraizado nas vontades mais obscuras do ser humano:

Incesto, masoquismo, fetichismo, masturbação: AMOR LIVRE!

Uso meu corpo como uma extensão para tudo o que eu desejo. Me dobro, me jogo, me atiro sem esperar uma rede de proteção. Sou uma eterna adoradora da lascívia e da sensualidade. Corpos nus se estendem sobre a cama, num eterno vai e vem, em que se atritam e se rendem a um gozo de múltiplas sensações. Sei que sou julgado, condenado e constantemente apedrejado por aqueles que, por inveja ou por medo, quem sabe, não se rendem aos seus desejos.  Eu sou a vergonha dos olhos das donas de casa, eu sou o olhar da beata fanática, eu sou o seu desejo escondido e renegado. Eu sou a luxúria, nascida dentre a paixão, que se transforma em ira quando insatisfeita. Eu sou insaciável, passiva como um anjo, ou indomável como um demônio. Eu sou a porta de acesso ao um mundo obscuro. Te conduzo por caminhos tortuosos, mas inegavelmente excitantes, faço você se render aquilo que você mais teme. Ah, como me acalenta a alma feito um bálsamo esse teu jeito assustado perante meus devaneios. Meu corpo anseia pelo complemento do seu. O ofegar da sua respiração faz com que eu perca a noção de tempo e espaço. Sou seu refém! Prenda-me com seus olhos, morde-me com tua boca ávida pela minha pele. Sente o gosto do meu beijo, o calor dos meus delírios, o desejo estampado nos meus olhos. Coma-me com teus olhos sedentos.

Rasga minhas vestes como fossem feitas de papel!

Papel que eu utilizo para descrever em detalhes toda minha volúpia por este momento tão esperado. Cavalgo pelo teu corpo como uma amazona na fúria da batalha. Sinto teu gosto de fera na minha boca que se abre para receber mais uma parte de ti. Adentra-me com tamanha sede que sou capaz de visualizar um oásis em meio ao deserto dos meus desejos.  Conduzo-te a um vale de sensações, em que o medo e a dúvida já se dissolveram. Aos poucos vou perdendo a noção da realidade, nossos corpos já não podem ser distinguidos separadamente, co-habitamos um ao outro numa simbiose perfeita. Nosso ritmo se perde da mesma forma como perdemos a consciência. O toque dos meus dedos em seu corpo estendido te traz de volta a realidade. E com ela, a sensação de dever cumprido. 


Deixais se dominar pelas paixões ó homens de pouca fé!

terça-feira

O MEDO


Hoje me perguntaram do que eu tinha medo. Fiquei paralisado. Do quê que eu tinha medo. Ou melhor, do quê eu tenho medo? Não faço a menor idéia. Aliás, tenho sim espera um instante, me deixa pensar...

Eu tenho medo da morte. Assim, tenho medo de perder as pessoas que eu amo. Tenho medo que a morte as leve. Tenho medo de repente não poder fazer uma coisa simples como pegar um telefone pra dizer: - Oi mãe!

Tenho medo de não dar certo na profissão que eu escolhi. Sei lá, ficar taxado de fracassado, das pessoas que apostaram em mim, olharem desapontados com o resultado que eu obtive!

O medo paralisa tanto. Ele bloqueia muitas das nossas ações. Sentir medo apesar de ser profundamente aceitável e humano (afinal de contas ainda somos humanos né?) é motivo de vergonha pra algumas pessoas. E isso inclui a mim, que tenho medo de coisas absurdas como, por exemplo, (vou acabar com a minha reputação!) filmes do Chuck, o brinquedo assassino. Tenho pavor daquele bonequinho. Tenho medo praia deserta, assim como morro de medo de tomar banho de mar à noite. Tenho medo de viajar de noite, tenho medo de água em excesso (o que não impede de você colocar um cruzeiro máster chique no meu destino, viu Deus?), tenho medo de filmes de terror e até de suspense. Tenho medo de lagartos. Tenho medo da Joelma da banda Calypso. Tá gente esse último é sacanagem, adoro a Joelma (acelerou, acelerou, acelerou meu coração...).

Já perdi as contas das vezes que eu deixei de fazer alguma coisa por conta de um medo. Sabe que agora eu ando pensando que as vezes esse medo serve como uma espécie de alerta. Às vezes o medo é o nosso anjo da guarda dizendo: - Olha só o que pode te acontecer se você continuar insistindo nessa bobagem!

Por isso agora já me decidi: vou continuar tendo medo. Sentir medo, e melhor, assumir que sente medo não faz de você mais fraco que ninguém. Muito pelo contrário. Você demonstra o quão forte é, quando admite as próprias fraquezas.

(Lindo isso não foi? Arrasei!).

Cada vez que consigo vencer um desses monstros do medo que vivem dentro de mim, é como se eu provasse pra mim mesmo, que por mais que o mundo me diga o contrario, eu sou capaz sim de ir cada vez mais além. Além dos meus medos, além dos meus desejos, além das barreiras que o mundo insiste em colocar no meu caminho. E se eu posso ir além, acredite, VOCÊ TAMBÉM PODE! Vença seus medos e seja feliz!

Amigos: por onde andam eles?


Existe um ditado que diz morremos como viemos ao mundo: sozinhos (com exceção dos gêmeos, claro). Fico me perguntando se realmente é assim. Será? Ao longo de nossas vidas, sejam elas curtas ou não, nós conhecemos tanta gente, como podemos morrer sem a presença de nenhum deles? Enfim, levando nosso papo adiante, meu post de hoje é sobre amizade. Essa coisinha que às vezes nós esquecemos e passamos por cima. Amigos são criaturas engraçadas. Mesmo quando são sérios. Eles estão sempre ali quando precisamos, ou pelo menos esperamos que eles estejam.

Não é fácil ser amigo de alguém. Digo isso por quê o ser humano é muito complexo. Complexo até demais. Muitas vezes quando você pensa estar agradando está provocando exatamente o oposto. E a gente fica sem jeito de dizer a verdade ao amigo e acaba deixando que ele continue sem noção.  O ser humano é falso por natureza. Mesmo quando não quer, ele acaba se distraindo e quando vê, ops, já pensou o que não devia. Imagina se Deus desse o poder de ler mentes para nós? Nossa senhora, que puta confusão não ia ser. Muita gente seria linchada, e eu confesso que seria uma das vítimas.

Amizade quer dizer dedicação. Não quer dizer que você tenha que viver apoiando a pessoa o tempo todo, mesmo ela estando errada, Quer dizer que você tem que apoiá-la deixando clara sua posição perante os fatos. Um bom amigo não oculta os mal feitos do outro. Muito pelo contrário, o objetivo de um amigo em sua vida é simplificá-la.

Amizade tem a ver com saber lidar com as distâncias. Hoje me pego a pensar em muitas pessoas que em determinados momentos da minha vida foram imprescindíveis e que hoje só me lembro delas vez ou outra. Aí eu me pergunto: era amizade mesmo? Desenvolvi uma tese para essa questão. Ei-la: algumas pessoas se fazem de tal maneira presentes em nossa vida, que acabam por marcá-la de uma forma definitiva, tendo assim um lugar especial na sua história. Essa marca permanece mesmo que essas pessoas não façam mais parte do seu dia a dia.

Amizade não pode sufocar. Ta bom que é muito gostoso ter um amigo que te faz se sentir bem, que te diverte, que te salva do sufoco. Mas é preciso delimitar limites nessa relação de amizade. Parece radical? Não é. Digo isso por que é extremamente sufocante ter uma pessoa que por ser seu amigo se acha no direito de controlar sua vida. Amigo não significa dono. Você deve deixar seu amigo ser feliz, e viver. Conhecer outras pessoas ou mesmo se tornar amigo de outras pessoas não vai fazer dele menos seu amigo. Mas um ciuminho básico pode por ninguém é de ferro.

Parentes são pessoas que Deus joga no seu destino sem que você possa reclamar (ou até pode, mas não sei se vai adiantar muito, afinal de contas você já nasceu mesmo!), mas amigos são pessoas que surgem em seu destino para que você possa acrescentar algo de bom em si mesmo. Nós aprendemos com nossos erros e os verdadeiros amigos nos ajudam nesse aprendizado. Erram conosco, vibram com nossas vitórias, choram nossas derrotas, e acima de tudo, caminham conosco lado a lado, nos empurrando pra frente.


Um abraço a todos os meus amigos. Aos que passaram pela minha vida e aos que continuam. Aos que se foram, aos que estão e aos que virão, a todos um caloroso abraço!



segunda-feira

EU NÃO SOU ADULTO! OU MELHOR: NÃO QUERO SER!

EMBORA SOUBESSEMOS QUE UM DIA TODO AQUELE DESEJO DE SER GRANDE PASSARIA NÃO ABRÍAMOS MÃO DE PENSAR COMO SERÍAMOS NO FUTURO, AGORA NÃO TÃO DISTANTE ASSIM.

ÉRAMOS UM GRUPO QUE SONHAVA, SONHÁVAMOS QUE PODIAMOS TUDO
TUDO O QUE TINHAMOS ERA NADA, NADA MAIS DO QUE O NECESSÁRIO. NECESSARIAMENTE EU BUSCAVA UM ALGO A MAIS NAQUELES OLHOS BRILHANTES
ME ENCANTAVA O FATO DE QUE AQUELE BRILHO QUE POR VEZES ME OFUSCAVA APAGAR SE IA EM MEIO AO PASSAR DOS ANOS .

TERÍAMOS ENTÃO REALIZADO NOSSO DESEJO

SERÍAMOS GRANDES, ADULTOS

PORTANTO, CINZAS!!

MINHA INCAPACIDADE DE LIDAR COM AS PESSOAS



Acabei de chegar em casa depois de passar três dias fora. Sabe, me sinto estranho ao pisar novamente aqui. As pessoas me olham como se eu fosse um ser estranho, como se não pertencesse mais a esse mundo. Desde pequeno nunca tive muita vontade de viver em bando. Claro gosto de ter a companhia de pessoas que eu gosto, dos meus amigos, eu gosto disso. Mas eu sou um cara que preza muito mais a solidão. Adoro ficar em casa sozinho, ouvindo música, curtindo a minha companhia. Sei lá, uma esquizofrenia talvez, mas é o meu jeito. As pessoas se assombram sempre que conto minha fórmula da felicidade: ter o meu canto, com a minha energia, ter o meu emprego, ter meus pequenos luxos como ir ao cinema, comprar um livro e fazer uma viagem no fim do ano. Ou seja, coisas extremamente possíveis. E para isso eu não preciso desfrutar da companhia de ninguém. Posso muito bem fazer tudo isso sozinho. Por quê que eu sou assim? Freud explica. Sempre fui uma pessoa que se apega muito fácil aos outros. Me apegava aos meus amigos com uma facilidade impressionante. E o tempo (ou o destino, chamem como quiser) sempre dava um jeito de afastá-los de mim. Eu, bobo como sempre, demorei até perceber que essa é a máxima dos amigos na nossa vida: eles vem e vão, aproveite os enquanto ainda estão do seu lado. Hoje em dia aprendi (será?) A lidar com essas perdas. Desfruto ao máximo a companhia dos meus amigos. Sempre com esse medo, esse temor de perdê-los na primeira esquina. Mas mesmo assim vou em frente e tento manter essa amizade ao máximo. Gosto muito de conhecer pessoas, é um dos meus passatempos favoritos.


Chuva agora, quem sou eu no meio da névoa?

Quero se livre...
Meu sonho? Tomar um banho de chuva...














A chuva cai em cântaros nessa cidade estranha na qual me encontro. Uma chuva densa que tem por finalidade lavar toda a sujeira que permanece oculta pelas sombras da noite ou pelas cinzas do dia. Penso que talvez eu devesse me colocar debaixo dessas águas abençoadas para que minha alma fosse purificada, para que meu corpo permanecesse isento da maldade desse mundo cão. Contemplo com um olhar perdido os rostos tristes e sem esperança dos milhares que passam por mim diariamente no seu frenesi incontrolável. Todos temem algo, ou alguém. Todos buscam alguma coisa, ou alguém. Algo que os transforme em seres realizados. Meu olhar vazio percorre vielas, becos vazios e ruas povoadas de gente. Meus passos me levam adiante sem que eu possa me dar conta de para onde estou seguindo. É como se uma força dentro de mim se manifestasse, uma força que eu não conhecia. O frio que se instala em mim quando abro a janela do ônibus vazio, me trás à lembrança de quando era criança, e que todos os meus problemas se resolviam cobrindo a cabeça com o lençol da cama. Observo a paisagem ao meu redor. É um misto de loucura com desejo, uma fórmula que eu jamais saberia explicar. Assim é essa cidade. Um lugar que me desafia a todo instante. Dotada de uma força descomunal, essa cidade tem a capacidade de testar todos os meus limites. Nela chego ao topo ainda desejando ir mais além. Organizo os pensamentos que vem em alta velocidade na minha cabeça. Uma esquizofrenia se apossa do meu ser, e no minuto seguinte decido que já não sou eu mesmo. Sou qualquer, eu sou de qualquer lugar. Eu sou do mundo, sou o quem o mundo quiser que eu seja. Eu sou uma fera que corre contra o vento buscando o prazer de estar liberta. Eu sou a fúria nos olhos dos guerreiros que por aqui passaram anos atrás. Eu sou o ciúme que percorre as veias do amante, eu sou o desejo que corrói os jovens enamorados, eu sou a raiva de um coração desprezado, a desilusão que mutila o sonho daqueles que não conseguem ir além das dificuldades que encontram pelo caminho. Num súbito lance de lucidez retorno para minha realidade cotidiana, onde sou esse ser que todos vêm, mas que ninguém consegue decifrar, que mantêm dentro de si um mundo que pulsa, vibra e sofre. Carne, sangue e coração.


Na solidão encontro todas as forças que necessito para sobreviver nesse mundo...

terça-feira

VIAJANDO POR ENTRE NUVENS E FORMAS

*texto escrito coletivamente por Thiago Ribeiro, Priscila Pimentel, Amanda Shapovalov, Maurício Almeida, Juliana Paixão e Liliane Pires, na escola de teatro da UFBA.
                             NUMA TARDE DE SEGUNDA FEIRA AO QUASE POR DO SOL JUCA E BRUNO OLHARAM AO MESMO TEMPO PARA O CÉU. DA FRONDOSA E ENCORPADA ÁRVORE ONDE ESTAVAM, EXAMINAVAM O CÉU ATENTAMENTE A PROCURA DA NUVEM MAIS BONITA QUE EXISTISSE. E LÁ, NO CÉU, ENTRE BICHOS E OUTRAS FORMAS VIAJARAM NUMA VELOCIDADE QUE SÓ SE ATINGE QUANDO SE USA TODO O PODER DA SUA IMAGINAÇÃO, IMAGINAÇÃO ESSA QUE SÓ AS CRIANÇAS POSSUEM EM VASTA QUANTIDADE.

                OS MENINOS NEM VIAM O TEMPO PASSAR, DE TÃO ENTRETIDOS QUE ESTAVAM. APONTAVAM EXCITADOS PARA O CÉU SEMPRE QUE VIAM SURGIR POR ENTRE AS NUVENS UMA FORMA DIFERENTE. UM COELHO, UM CAVALO, UM VELHO, UM MENINO; ERA UMA IMAGEM SE FORMANDO ATRAS DA OUTRA, IMAGENS VAGAS, IGUAIS AS MEMORIAS SOLTAS DAS  SUAS VIDAS. SUBITAMENTE, BRUNO PAROU DE CONTEMPLAR O CÉU E VIROU SE PARA JUCA DIZENDO COM A CARA SÉRIA:
- Você já percebeu que o mundo não gira mais?
- AH! Ra-ra-ra; o mundo ta girando você é que não percebeu! – respondeu Juca, certo de que eras mais esperto que o irmão.
BRUNO NÃO SE DEU POR VENCIDO:
- Digo que não, veja bem! Você lembra-se de quando podíamos voar?
JUCA FICOU PENSATIVO. NÃO SÓ LEMBRAVA-SE DE QUANDO PODIA VOAR COMO TINHA CERTEZA DE QUE PODERIA FAZÊ LO DE NOVO SE ASSIM QUISESSE. CONCENTROU SUA ENERGIA NAQUELA IDEIA E COMEÇOU A FLUTUAR EM DIREÇÃO AO CÉU, AINDA QUE SEU CORPO NÃO TIVESSE SAÍDO DA COPA DA ÁRVORE.
OLHOU PRA BRUNO E DISSE:
- VEM!
E BRUNO O SEGUIU, SEM NEM PERGUNTAR PRA ONDE. VOAVAM POR ENTRE AS NUVENS. NESSA LONGA VIAGEM TENTAVAM APRISIONAR NUMA PEQUENA GAIOLA IMAGINÁRIA PEDAÇOS DE NUVENS, NUVENS ESSAS QUE FUGIAM AMEDRONTADAS. EM DADO MOMENTO, NUM PROVIDENCIAL GOLPE DE SORTE um dos meninos agarrou uma enorme barra de chocolate que por ali passava. Sua alegria se dissipou ao perceber que aquele sonho doce lhe escapava pelas mãos.
DECIDIRAM ENTÃO VOLTAR PARA A TERRA E NUM PISCAR DE OLHOS ESTAVAM NOVAMENTE NO QUINTAL DA CASA DO AVÔ, NA VELHA GOIABEIRA. A ÁRVORE QUE OS ACOLHIA EM TODAS AS SUAS AVENTURAS.
- Vamos fazer uma casinha na árvore ? – PERGUNTOU JUCA.
- Seria bem legal! Podíamos até pescar no riachinho que passa aqui perto. Hum! Adoro camarão! – RESPONDEU BRUNO.
E PUSERAM SE A PENSAR E TRAÇAR OS PLANOS DA CONSTRUÇÃO DA NOVA MORADA. SERIA FORTE, RESISTIRIA A TROVÕES E TEMPESTADES, SERIA O ESCONDERIJO PARA ESCONDER TESOUROS ROUBADOS DE PIRATAS, SERIA O CASTELO QUE HOSPEDARIA REIS E RAINHAS QUE POR ALI PASSASSEM. OU NA MENOR DAS HIPÓTESES, SERIA ONDE SE ESCONDERIAM CASO MAIS UMA VEZ JUCA QUEBRASSE A JANELA DO VIZINHO COM UMA PEDRA DO SEU ESTILINGUE.
SUBITAMENTE, JUCA PERGUNTOU:
– Bruno você lembra quando tínhamos que trabalhar?
– Era cansativo!... Agora é muito melhor.
– É! Sou mais feliz agora também.
– Agora é que é bom. Não temos preocupações. Comemos algodão-doce, maçã do amor, brincamos com carrinho de rolimã, sete pedras, picula, elástico, nossa! Que maravilha! Deu vontade de descer da árvore, reunir a galera e brincar até cansar! – concordou Juca.

- Tu se lembra de quando a gente pegava maçã pra comer aqui escondido da minha tia?
- Lembro pouco... Acho que tô perdendo a memória da minha infância.

Juca fica de frente para Bruno, que faz cara de decepção. Juca olha algumas folhas de jornal no chão, se abaixa, pega uma folha de jornal, amassa ela toda até formar uma bola, olhando para a bola de jornal amassado ele estende o braço para Bruno..

- Veja! Agora você lembra? – diz sorrindo para o irmão. – O mundo é que nem essa folha de jornal, a gente pode dar a forma que a agente quiser.
EMPOLGADO, BRUNO JÁ IA RESPONDER QUANDO PAROU ASSUSTADO.
- Você está ouvindo? – PERGUNTOU BRUNO
- O que? – DISSE JUCA
- Uma voz, JUCA.
-PARECE QUE É... A árvore que tá falando...
E num misto de excitação e medo pararam para ouvir o que a velha árvore dizia:
...E o tempo será infinito. E vocês poderão transcender. E as brincadeiras irão fazer vocês viajarem por diferentes paisagens. Mas, apenas tenham cuidado com uma coisa: o mau-humor. Ele poderá fazê-los retornar ao início da viagem, ou então, ir para o mundo das sombras.

Juca, já mais seguro de si, respondeu:
- Ah, Dona Árvore, se os pensamentos ruins vierem, é só apagar com borracha.
As pessoas começaram de repente a rejuvenescer? Ou os espelhos já não refletiam apenas o exterior? A questão é que as perguntas já nem eram tão importantes, pois a vontade de correr para rua e bolar novas brincadeiras e remodelar as antigas, sempre numa nova algazarra, superava qualquer outro desejo. Sorrisos garantidos, rugas perdidas e dias seguidos... Dias atípicos passaram a ser os que o Sol resolvia seguir seu velho caminho de iluminar e apagar, e permanecia cá e lá, e fazia mais horas de luz e brincadeira.
-              Bruno, para onde vamos?
-              Depois do lanche?
-              Não, Bruno! Para onde vamos todos nós? Para onde vão as horas? Que faremos no futuro?
-              Ah, Juca, não sei... Sei que inventar faz parte do futuro e passado de todos nós. Vamos seguir fazendo o novo, e rindo com ele.
-              E você ainda chora, Bruno?
-              Sim... E nesses dias fico pesado como nuvem de abril. E despenco em lágrimas e chovo muito... Dissipo e recomeço!

DESEJO... DESEJO MAIS QUE UM SIMPLES DESEJO!


Desejo muito mais que a felicidade para ti.
Desejo que um dia você possa olhar para trás, e mais do que se arrepender do que não fez, possa se orgulhar do que fez.
Desejo que você não se perca pelas estradas. Desejo que você encontre o caminho certo.
Desejo que numa tarde de chuva você possa pintar um quadro ou assar um bolo.
Que você deixa de achar que tudo o que pensaras são bobagens. A maioria das coisas bonitas que lemos por aí foram um dia taxadas de bobagens...
Desejo que você não tenha medo de enfrentar as barreiras que surgirem...
Desejo que você destrua as barreiras, e caso não consiga, contorna-as....
Desejo que você seja além do que você desejava anos atrás.
Desejo que você volte a desejar o que já não desejava mais.
Desejo que você ame.
Desejo que você me ame.

segunda-feira



02:45 DA MADRUGADA, LIGO PC EM BUSCA DE ALGUÉM QUE ESTEJA ONLINE. LOGO PERCEBO QUE NÃO TEM NINGUÉM. NINGUÉM PRA CONVERSAR. LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO QUE EU TENHO 214 AMIGOS NA MINHA LISTA DE CONTATOS, A SITUAÇÃO ESTAVA FEIA PRO MEU LADO. LÁ FORA UMA CHUVA TORRENCIAL CAÍA NUMA FÚRIA AVASSALADORA.

JÁ CONTEI AQUI QUE EU MORO SOZINHO. JÁ ME ACOSTUMEI COM ISSO. NA VERDADE EU ATÉ GOSTO É BOM SER SÓ EU ÀS VEZES. MAS NEM SEMPRE ISSO É TÃO POSITIVO. NESSE DIA POR EXEMPLO, FOI PÉSSIMO. MEU DIA NÃO TINHA SIDO MUITO BOM, PROBLEMAS NA FACULDADE, PERDI UM POSSIVEL EMPREGO E PRA COMPLETAR, CHEGO EM CASA E SOU RECEBIDO COM UMA PUTA BRONCA DA SÍNDICA (SEI QUE É CLICHÊ, MAS A SÍNDICA DO MEU PRÉDIO ME ODEIA!) POR NÃO TER COMPARECIDO NA REUNIÃO NA SEMANA ANTERIOR.

ENFIM, DE QUALQUER FORMA EU TINHA ACORDADO COM TODOS OS PÉS ESQUERDOS DO MUNDO, TANTO QUE NÃO TIVE O MENOR ÂNIMO PARA SAIR NO FIM DE SEMANA. AH É, ESQUECI DE CONTAR QUE ERA UMA SEXTA FEIRA (ISSO EXPLICA TALVEZ A AUSÊNCIA DE PESSOAS NO MSN). E SEXTA FEIRA EM SALVADOR É PRATICAMENTE CARNAVAL FORA DE ÉPOCA: FESTA EM TODO LUGAR. MAS EU NÃO ESTAVA NA VIBE.

ENFIM, COMO EU DIZIA, LIGUEI O MSN EM BUSCA DE ALGUÉM E NADA! PUTO DA VIDA RESOLVI ENTRAR NUMA SALA DE BATE PAPO. DEPOIS DE RECEBER UMAS 3333333 MENSAGENS COM TEOR SEXUAL, ENCONTREI UMA GALERA DISPOSTA A TECLAR SÓ POR CURTIÇÃO MESMO, SEM SACANAGEM,
FIQUEI ATÉ AMANHECER O DIA CONVERSANDO COM ELES SOBRE OS MAIS DIVERSOS ASSUNTOS, FOI IMPRESSIONANTE COMO EU ME DISTRAÍ COM AQUELAS PESSOAS QUE EU NÃO CONHECIA, QUE NUNCA TINHA VISTO, QUE NEM SABIA COMO ERAM SEUS ROSTOS. UMA COISA LOUCA.

DEPOIS QUE DESLIGUEI O PC E ANTES DE ADORMECER NO SOFÁ DA SALA FIQUEI PENSANDO COMO O MUNDO É LOUCO. ÀS VEZES QUANDO A GENTE PROCURA O QUE ESTÁ DO LADO ELE NUNCA ESTÁ DISPONÍVEL PRA GENTE, MAS DE ONDE A GENTE NEM ESPERA VEM A SOLUÇÃO DO PROBLEMA QUE NOS AFLIGE. E MEU PROBLEMA NAQUELE DIA ERA UMA SOLIDÃO IMENSA. MAS DE QUALQUER FORMA FIZ MAIS QUATRO AMIGOS QUE SALVARAM MEU DIA, OU MELHOR, MINHA MADRUGADA. A PROPÓSITO, TERMINO ESSE POST AGORA POR QUE TENHO UM ENCONTRO VIRTUAL COM ELES. TCHAU E ATÉ A PRÓXIMA GALERA! FUUUUUI!!



terça-feira


VERSOS DE CAPITU




TINHA EU POR VOLTA DE DOZE ANOS QUANDO PASSEI A ME INTERESSA PELOS ATRIBUTOS DO SER FEMININO. AQUELA CRIATURA QUE SE DESENHAVA PERANTE OS MEUS OLHOS ERA DIGNA DE UMA PINTURA DIVINA. ERA COMO SE TODOS OS MEUS SONHOS TIVESSEM SIDO TRADUZIDOS EM TOTAL ESPLENDOR. ASSIM ERA CAPITU, A NOIVA QUE SEMPRE DESEJEI MAS QUE NÃO SOUBERA EM PALAVRAS DESCREVER. QUANDO BRINCÁVAMOS EM CRIANÇA, ERA COMO SE EU FOSSE SEU IRMÃO MAIS NOVO, EMBORA FÔSSEMOS SEMELHANTES EM IDADE. CAPITU DOMINAVA MINHAS AÇÕES COM UMA FACILIDADE INEXPLICÁVEL. ERA COMO SE, PERTO DELA, TODAS AS MINHA VONTADES FOSSEM MEROS ARROUBOS DE RAPAZOTE. MANTINHA SOBRE MIM UM FASCÍNIO, UM ENCANTAMENTO QUE EU JULGAVA EXISTENTE APENAS EM HISTÓRIAS E FÁBULAS PARA CRIANÇAS PEQUENAS. O ÁPICE DO MEU ENCANTAMENTO OCORREU QUANDO ME PEGUEI A FAZER VERSOS ENCOSTADO NO CANTO DO MURO


terça-feira


Uma musiquinha pros momentos felizes...

Processo Criativo Teatro na Educação III: Deslocamento descoberta des aumentado

Processo Criativo Teatro na Educação III: Deslocamento descoberta des aumentado: " Ó ela aí de novo Adivinhem quem é? ' Vixe Maria ', ..."

Entre formigas, viagens e pirlimpimpim.

Junte um grupo de crianças mal crescidas, uma vontade intensa de aprender e o brincar que se apresenta de diversas formas. Essa receita resulta na criação de pequenos espetáculos cênicos, que semanalmente são apresentados pelo Módulo III de Licenciatura. Começo esse texto chamando esses jovens educandos de crianças, por quê é assim que eu os vejo. Caçamos incansáveis formigas em seu ininterrupto caminhar durante uma segunda feira de sol ameno. O interlocutor aqui presente também teve seu momento de observação, mantendo com a intrépida formiga uma relação um tanto quanto exótica. Selma, a formiga observada por este que vos fala, tinha o estranho hábito de querer se comunicar com outros seres. Principalmente aqueles estranhos que, grandes como imensas hastes de girassóis, passavam por seu formigueiro a todo instante, por vezes destruindo pequenas reservas de gravetos que por horas foram arrumadas pelas incansáveis criaturas.

Não há de ser preciso ser grande filósofo ou um homem de grande prestígio acadêmico para perceber que Selam sofria com o descaso das suas semelhantes. Ressentia-se por não poder se comunicar com aqueles seres que tanto admirava. E nos seus devaneios de jovem saúva, perdia-se a imaginar o que faria caso um dia um humano parasse para ouvir uma das suas conversas. Naquela segunda feira, quando notou se observada por aquele humano de cabelos enormes, pôs se a andar em círculos. Queria que ele entendesse o que ela dizia. Ele, ao contrário, parecia observar sem nenhum interesse mais amoroso o que ela fazia. Anotava as ações de Selma, com um desinteresse que ofendia a moral da pobre formiga, que indignada, mordeu-lhe a ponta do pé seguiu seu caminho. Saiu a buscar uma criança, dessas que ainda entendem a língua das saúvas.

UMA VIAGEM... VÁRIOS DESTINOS

Uma mochila é capaz de levar em seu interior um mundo. Um mundo pertencente àquele que a carrega. Ou não. Aquela mochila era minha. Era do menino que um dia eu fui. Da criança que eu acho que ainda vive dentro de mim. Cada parte da minha vida se encontra representada naqueles objetos. Insisto em forçar a memória para que os menores detalhes não se apaguem, já que sabemos que o Diabo mora nos detalhes.  Eu sou oriundo de uma cidade pequena. De uma cidade pequena, mas com uma alma enorme, dessas almas que de tão grande conseguem carregar dentro de si uma alma em forma de algodão doce.  Dessas cidades que trazem a poesia estampada em cada rosto.  Aquele menino que viajava com o tio para algum lugar que não sabemos onde, ele levou um pedaço de mim. Na verdade vou um pouco mais longe: ele é um pedaço de mim. Cest fini.

UM POUCO DE PÓ: DO PÓ VIEMOS, AO PÓ VOLTAREMOS (?).

Olhei pra Lorena com olhos interrogativos. Sua resposta foi pegar um pouco de pó e passar em si mesma, como se me encorajando a fazer o mesmo. Perdi o medo e fui adiante, passando aquele pó em seu corpo. Já não era mais a farinha de trigo da aula de montagem didática. Era uma areia fina, areia de deserto, areia que queima a pele, que corta, areia que machuca. Areia. Pura e simplesmente areia. Ao som de Coldplay, fechei os olhos e me entreguei àquela aula. Gostei mesmo. Foi muito bom, consegui um nível de interação com Lorena em poucos minutos, o que não é tão comum.  Sai todo sujo, mas feliz. Faria tudo de novo. Momentos depois inverti os papéis. Fui observar o grupo seguinte. Detive-me em Isis, Cleidenara e Dominique. Detalhe: acompanhei a cena dos três como se estivesse numa sessão de cinema. Os três pareciam crianças, livres ao brincar com o pó. Surgiu uma pequena dramaturgia, que contagiou os espectadores. Eles também se jogaram no trabalho. Estavam absortos. Essa foi particularmente minha aula favorita. Foi muito bom improvisar, me fechar na sala escura e fria (sala 5) e transformar aquele pó em poesia.

O GRAMOFONE

A aula mais recente de montagem didática foi à aula do Gramofone. Inspirados por um texto de Manoel de Barros trabalhamos em grupo, na construção subjetiva de um vovô, de uma árvore, de um gramofone. Não foi fácil. Fizemos a improvisação, mas pela primeira vez não me senti à vontade, aliás, não consegui ver beleza naquele trabalho. Sou um pouco doido, costumo ver poesia onde não há, ou pode ser até que seja o oposto, pode ser que eu veja poesia onde mais ninguém ver. Como essa segunda opção é muito narcisista fico com a primeira. Mas eu não consegui ver a poesia daquela improvisação. No outro dia, a surpresa: as fotos da apresentação me surpreenderam. A poesia estava ali, naquelas imagens, super presentes. Eu não senti a poesia, mas eu era parte dela.


AS COISAS ESTÃO PASSANDO MAIS DEPRESSA....





As coisas estão passando mais depressa
O ponteiro marca 120
O tempo diminui
As árvores passam como vultos
A vida passa, o tempo passa
Estou a 130
As imagens se confundem
Estou fugindo de mim mesmo
Fugindo do passado, do meu mundo assombrado
De tristeza, de incerteza
Estou a 140
Fugindo de você
Eu vou voando pela vida sem querer chegar
Nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar
Vivo, fugindo, sem destino algum
Sigo caminhos que me levam a lugar nenhum
O ponteiro marca 150
Tudo passa ainda mais depressa
O amor, a felicidade
O vento afasta uma lágrima
Que começa a rolar no meu rosto
Estou a 160
Vou acender os faróis, já é noite
Agora são as luzes que passam por mim
Sinto um vazio imenso
Estou só na escuridão
A 180
Estou fugindo de você
Eu vou sem saber pra onde nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim
O ponteiro agora marca 190
Por um momento tive a sensação
De ver você a meu lado
O banco está vazio
Estou só a 200 por hora
Vou parar de pensar em você
Pra prestar atenção na estrada
Vou sem saber pra onde nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes, às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim
Eu vou, vou voando pela vida
Sem querer chegar

quinta-feira


PARIS, 1453

Tudo começou com o fim. É estranho pensar isso, já que irremediavelmente as coisas tendem a começar pelo início. Mas nesse caso, o fim é o início mais propício. As sensações vieram à tona, numa imensa fúria, como que provocadas por um soco no estômago. Uma ânsia fez com que as coisas ao redor se mostrassem com maior clareza. A meia luz naquela ante-sala obscura fazia com que o atordoamento se estendesse ao longo dos minutos. Olhou para sua frente e a única coisa que pôde distinguir naquele ambiente opaco, foi o vulto de uma cama, onde uma figura envolvida pelo breu jazia inerte.
            Forçou os olhos o máximo que pôde, numa vã tentativa de distinguir uma forma, um molde, alguma coisa que distinguisse e determinasse a espécie do alvo de observação. Mas mesmo esforçando-se ao extremo, não conseguiu grandes progressos. Só então se lembrou de olhar para si e pôde então perceber o estado lastimável no qual se encontrava. Suas vestes contrastavam com a sua pele alva. Sujas e rasgadas, os panos que lhe cobriam o corpo pareciam querer se libertar e deixá-lo ao bel prazer do que sucederia depois.
            Levou a mão ao rosto num gesto desesperado. A garganta seca, os olhos ardendo, a pele enrugada. Abaixou as mãos e voltou a se concentrar na cama. Olhou ao redor e certificou-se estar só. A penumbra em que estava, tornava-se pouco a pouco menos opaca. Pensou em se levantar da cadeira onde se encontrava, mas foi impedido por um pensamento, pelo receio de estar preso aquela cadeira. Sem ter coragem suficiente para se desprender de onde estava, achou melhor clamar por ajuda. Puxou o ar dos pulmões e tentou gritar por alguém, porém, nenhum som saiu de seus lábios.
            O desespero começou a tomar conta daquele indivíduo. O medo paralisou-lhe os pensamentos, e as ações, mesmo aquelas mais simples, lhe pareceram naquele momento impossíveis de serem realizadas. Tentou recordar como viera parar ali, onde estivera mais cedo. Mas era como se uma nuvem cinza lhe encobrisse os pensamentos.
            Pensou em pedir ajuda ao desconhecido da cama. Mas como fazer para atrair a atenção do outro, que jazia distante, sem que nenhum som ou movimento dele saísse? Reunindo às últimas forças que lhe restavam, decidiu por levantar e ir de encontro ao outro,
Um misto de felicidade e alívio se deu ao perceber que seus membros inferiores lhe obedeciam. Lentamente começou sua caminhada em direção à cama.
            No curto trajeto observou o ambiente lúgubre no qual se encontrava. Imagens sacras espalhadas pelo recinto davam ao lugar uma aura mística e mórbida. Um velho baú de carvalho encontrava-se aberto num canto. Roupas em total desalinho estavam espalhadas pelo chão, como que a denunciar a presença de um ser em fuga. Da janela semi aberta, vinha uma brisa suave, mas fria, que mexia as cortinas de seda branca, dando a impressão de que havia alguém a brincar por entre elas.
            Voltou a olhar para a cama. Estava mais perto agora. Já podia distinguir as formas de um homem. Pensou em parar e evitar um confronto com alguém que ele sequer conhecia, mas a curiosidade lhe impeliu a ir em frente, e mesmo sem estar por todo certo do que queria, continuou a andar.  Agora estava a poços passos do seu alvo. Caminhou o mais lento possível, preocupado com a reação do outro, que se mantinha impassível. Finalmente, chegou ao lado do enfermo, que jazia coberto da cabeça aos pés. Suas mãos automaticamente se dirigiram  às cobertas e de supetão, o rosto do homem surgiu.
            Atordoado com a revelação, ele voltou para o lugar de onde saíra, desesperado, escondendo o rosto com as mãos, numa tentativa vã de apagar da memória o que acabara de testemunhar. Precisava apagar de sua memória, seu próprio rosto desfalecido, vencido pela peste.